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Vós sois testemunhas destas coisas

Ao anoitecer, naquele primeiro dia da semana, Jesus aparece no meio dos discípulos.

O contexto começa a ser de descontração, ainda que estejam reunidos e fechados em casa. Jesus tinha surpreendido os discípulos de Emaús. Tristes e desiludidos, aqueles dois discípulos regressavam às suas vidas. Vem caindo a noite. Jesus acompanha-os, questionando-os sobre a conversa que vinham a ter. Convidado por eles a pernoitar, Jesus entra em casa, senta-se à mesa e, no partir do pão, faz-lhes ver que é o Messias. Os discípulos perdem o medo e regressam à comunidade, para contar o que tinha sucedido e como O reconheceram ao partir do pão (cf. Lc 24, 13-35).

Enquanto os discípulos de Emaús relatam aos outros quanto ouviram a Jesus e como foram surpreendidos, eis que Ele Se apresenta no meio deles e os saúda, como antes: “A paz esteja convosco”. Sobrevém a surpresa, apesar do que já tinham ouvido e dos anúncios feitos por Ele de que ressuscitaria ao terceiro dia. Nada disto encaixa nos ditames da história humana, mesmo que tenham testemunhado a ressuscitação de Lázaro, do filho da viúva de Naím ou da filha de Jairo. Nessas situações era notória a ação de Jesus, nas palavras e nos gestos, aqui é o Próprio que vem e Se apresenta. Não é fantasma nem um espírito. É Jesus. As marcas da paixão estão no corpo, agora glorioso, mas visível aos discípulos. O lugar dos cravos está lá. Jesus faz emergir a esperança e o compromisso com a comunidade. Ele está no meio para unir, para fortalecer os vínculos entre eles, continuando a ser o ele que todos agrafa como Corpo, de irmãos.

A concluir o relato desta aparição, Jesus diz-lhes: “vós sois testemunhas destas coisas” (Lc 24, 48).

Mas que coisas? Testemunhas de quê?

Ser testemunha de um acontecimento, implica ter estado presente, ter visto e ouvido o que se passou, tendo a capacidade de relatar o sucedido; não é apenas relatar o que se passou, mas comunicar vida, a experiência e os efeitos do encontro com Jesus. Não está em causa o passado, cabe visualizar a ação de Jesus, hoje, nas suas vidas. E, hoje, nas nossas vidas, pois hoje somos nós, eu e tu, as testemunhas destas coisas.

Primeiro temos de fazer a experiência de encontro com Jesus, sentirmo-nos salvos por Ele, para O transparecermos, deixando-nos enviar por Ele.

Um jornalista perguntou a Madre Teresa de Calcutá quando é que ela tinha feito a opção pelos mais pobres. A resposta foi concludente: nunca fiz uma opção pelos mais pobres, a minha opção foi por Jesus Cristo. Contudo, sei, Ele o disse, que tudo o que fizer ao mais pequeno dos irmãos é a Ele que o faço. A minha única opção é Jesus.

Seja Jesus a nossa opção, procurando viver do mesmo jeito. Que as Suas palavras se convertam em vida e a Sua postura seja a nossa cartilha. Fixemo-nos n’Ele e logo saberemos com que contar:

– Defender a vida ou dar a vida para que os outros tenham vida em abundância. A Ele ninguém Lhe tira a vida, é Ele que a dá.

– Promover a dignidade de todos e cuidar (proteger) sobretudo os mais frágeis, crianças, mulheres, pecadores, publicanos, doentes, estrangeiros… e já não é pouco!

– Construir a paz, aquela paz que brota do amor e que coloca o outro em primeiro lugar.

– Amar como Ele amou (dando a vida). Cumprir com os Dez Mandamentos, pois Ele não veio abolir, mas levar à plenitude. Amar Deus e ao próximo como a si mesmo. Amamos a Deus nos irmãos.

– Igualdade, pois n’Ele todos somos irmãos, filhos amados do mesmo Pai.

– O nosso ideário é o das Bem-aventuranças, do perdão e da misericórdia, e do serviço, pois Ele veio, não para ser servido, mas para servir e dar a vida. Dar a outra face. Perdoar sempre. Antes da oração e das oferendas ao altar, reconciliar-nos com quem nos ofendeu…


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 94/22, n.º 4750, de 17 de abril de 2024

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