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Um olhar que desafia e abraça

Há olhares assim, que desafiam, que envolvem, que atraem, que acolhem, que abraçam, que embalam, que levantam, que devolvem a vida, há olhares que nos irmanam e nos salvam. É esse o olhar de Jesus e o nosso olhar quando deixamos que nele transpareça o olhar e o amor de Deus.

O olhar de Jesus transparece nos evangelhos com clareza. Olha para os doentes, para os pecadores, para a mulher adúltera, para a multidão, para os discípulos, para Maria, Sua Mãe, para o discípulo amado, para Marida Madalena e para Maria de Betânia e para Marta, olha para publicanos, para Pilatos e para Herodes, para Pedro, para Tiago e João, e para Tomé, olha para aquela mãe viúva e que vai a enterrar o seu filho único, e para Jairo, ressuscitando-lhe a filha, olha para Lázaro, para Mateus e para Zaqueu, olha para a mulher apanhada em flagrante adultério e para aqueles que a acusam, olha para as crianças, para os servos e os pequeninos, olha e abraça os leprosos, olha e devolve a vida ao cego, senta-se com eles à mesa e partilha com eles a refeição, olha para a viúva que deita duas moedinhas no tesouro do templo e para os ricos que deitam lá vistosas quantias para que todos vejam, olha para Judas com compaixão, para Natanael e para Filipe, olha para o jovem rico e para o centurião, curando-lhe o servo, olha para as mulheres de Jerusalém e para os seus sofrimentos. O Seu olhar é profundo e meigo, é acolhedor, comunica compaixão, cuidado e carinho, comunica perdão e reabilitação.

Em Lisboa, o Papa Francisco, na Vigília da JMJ 2023, fala do olhar de Jesus como o Bom Samaritano, que nos olha olhos nos olhos e nos levanta. Único momento em que podemos olhar o próximo de cima para baixo é quando nos debruçamos para o ajudar a levantar. Na Última Ceia, Jesus olha-nos a partir de baixo, da pequenez e do serviço, e nos lava os pés. Na Cruz, cabe-nos a nós, erguer a cabeça, e olhar para Ele, trespassado, a morrer. Ainda aí, Jesus levanta os olhos para o Pai – Meu Deus, Meus Deus, porque me abandonaste – e, logo antes do último suspiro há de fazer um derradeiro esforço para se deixar ver pelo Pai – Nas tuas mãos entrego o Meu espírito. Mas enquanto não chega esse momento, Jesus esforça-se por ver e responder aos salteadores crucificados com Ele, olha para os que O escarnecem e olha para a Mãe e para o discípulo amado, que, por sua vez, olham para Ele. Mas também as mulheres, também os soldados e o centurião, e, bem mais distantes, vê os apóstolos que espreitam, tentam ver, tentam ouvir, paralisados com o medo.

Na paróquia de Pinheiros, D. António Couto, cuja liturgia nos fez celebrar a exaltação da santa Cruz, fez-nos olhar para a Cruz sob dois prismas importantes.

Para ser mais exato, fui repescar a própria escrita do nosso Bispo ao seu blogue pessoal: “Ver o Filho do Homem levantado na Cruz é ver passar dois filmes: 1) o da nossa violência e malvadez, postas a descoberto naquele rosto desfigurado, naquelas chagas abertas, naquele sangue a escorrer ou já coalhado: está ali, bem diante de nós, a imagem do pecado que está escondido em nós; 2) passa ali também o filme do imenso amor de Deus, que não faz frente à minha violência, mas a abraça. Sendo Deus amor, então a única maneira que Ele tem de curar o meu pecado, não é decretar, lá do alto e de dentro das paredes douradas da sua eternidade, uma qualquer amnistia. A única maneira que Deus tem de me curar é descer ao meu mundo, viver no meu mundo, caminhar comigo, sujeitar-se às minhas maldades e tropelias, sujar-se com elas, sofrê-las e absorvê-las”.

Quando olhamos para a Cruz vemos os nossos pecados, a inveja, o ciúme, as guerras, a violência… mas vemos igualmente Alguém que nos abraça e nos salva.


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 94/42, n.º 4770, de 18 de setembro de 2024.

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