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Um manancial de bênçãos

Deus disse a Abrão: “Ergue os teus olhos e, do sítio em que estás, contempla o norte, o sul, o oriente e o ocidente. Toda a terra que estás a ver, dar-ta-ei, a ti e aos teus descendentes, para sempre. Farei que a tua descendência seja numerosa como o pó da terra, de modo que só se alguém puder contar o pó da terra é que a tua posteridade poderá ser contada. Levanta-te, percorre esta terra em todas as direções, porque Eu ta darei” (Gn 13, 14-17).

As três grandes religiões monoteístas consideram Abraão como o Pai dos crentes, pelo que os seus membros são seus herdeiros. A terra que lhe foi dada foi-o também para os seus descendentes, pelo que envolve, numa perspetiva mais restrita, milhões de pessoas em todo o mundo. Aqui se podem incluir russos e ucranianos, israelitas e palestinianos. Se a terra foi dada para todos, todos têm direito a usufruir dela, como chão onde podem pousar, viver, desenvolver-se como pessoas, em família e em comunidade, e na qual podem produzir e recolher os seus frutos. Por outro lado, se é de todos, não se compreende, nos dias que correm, como se pode querer a terra dos outros, destruindo-os, como a Rússia em relação à Ucrânia, ou como, reciprocamente, Israel e Palestina.

Se recuarmos um pouco mais, na ordem da criação e na fé que nos une, encontramos o desígnio de Deus para a humanidade. “Deus disse: ‘Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre os répteis que rastejam na terra’. Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher. Abençoando-os, Deus disse-lhes: ‘Crescei, multiplicai-vos, enchei e submetei a terra…’. Deus, vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa” (Gn 1, 26-31).

Respeitando o género literário do texto, na sua candura mitológica, sobrevém a dinâmica da fé e a leitura religiosa e inspirada sobre a criação. Do nada, só Deus pode criar e, criando, fez este mundo belo, habitável e casa de todos e para todos. Se na origem está um casal, o homem e a mulher, então toda a terra pertence aos seus descendentes. Não a uns poucos, mas a todos, porque todos são descendentes. O destino universal da terra mantém-se em Abraão e manter-se-á para sempre, pois, como nos mostra Jesus, Deus é Pai. Seu Pai e nosso Pai. De todos.

A palavra criadora é a palavra que abençoa e que declara a bondade do mundo criado, especialmente do ser humano. Se esquecermos a nossa origem, se cortarmos o cordão umbilical, em relação a Deus que é Pai, ficamos sem raízes, sem pátria, sem família. Se já não temos Pai, deixamos de ser irmãos. A bênção é para Adão e Eva, é para Abraão, e para os seus descendentes. Para toda a descendência.

Disse Deus a Abraão: “Farei de ti um grande povo, abençoar-te-ei, engrandecerei o teu nome e serás uma fonte de bênçãos… e todas as famílias da terra serão em ti abençoadas” (Gn 12, 1-9).

A vida de um crente judeu é marcada pela bênção, desde o acordar, ainda na cama, ainda antes de abrir os olhos, até ao regressar à cama e ao sono. Bênção, louvor e ação de graças. Colocar tudo na mão de Deus, agradecer-lhe pela vida e pelo tempo, pela criação e por cada instante, por cada encontro. Ao acordar, no momento da higiene e antes de cada refeição! Louvar e agradecer, confiantes que Deus nos guia e protege e que Se faz presente na nossa vida, também e especialmente nas situações adversas. Assim deverá ser a vida do cristão, bênção acolhida, vivida e partilhada, louvor e ação de graças, antes de mais, por Jesus Cristo, Deus que Se faz um de nós, connosco caminha, connosco partilha a Sua vida e o Seu amor, dando-Se, por inteiro!

Qual o conteúdo da nossa oração? Privilegiamos a bênção, o louvor? Hoje já agradecemos?


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 94/41, n.º 4769, de 11 de setembro de 2024.

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