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Superar a globalização da impotência

O papa Leão XIV, numa mensagem por ocasião da candidatura do projeto “Gestos de Acolhimento” a Património Cultural Imaterial da UNESCO, pediu especialistas em reconciliação, sublinhando que “a globalização da indiferença, que o Papa Francisco denunciou precisamente de Lampedusa, parece hoje ter-se transformado numa globalização da impotência. Diante da injustiça e do sofrimento inocente, somos mais conscientes, mas corremos o risco de ficar parados, silenciosos e tristes, dominados pela sensação de que não podemos fazer nada. O que posso fazer diante de males tão grandes? A globalização da impotência nasce de uma mentira: que a história sempre foi assim, que a história é escrita pelos vencedores. Então parece que não podemos fazer nada. Mas não: a história é devastada pelos poderosos, mas salva pelos humildes, pelos justos, pelos mártires, nos quais a bondade brilha e a humanidade autêntica perdura e se renova”.

A expressão “globalização da indiferença” ficou no ouvido, como constatação de uma realidade que exclui os pobres, produz mais excluídos, multiplica as periferias, numa cultura de descarte, em vez da inclusão e da fraternidade. «Esta cultura unifica o mundo, mas divide as pessoas e as nações porque ‘a sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos’ [Bento XVI, Caritas in Veritate]. Encontramo-nos mais sozinhos do que nunca neste mundo massificado, que privilegia os interesses individuais e debilita a dimensão comunitária da existência. Em contrapartida, aumentam os mercados, onde as pessoas desempenham funções de consumidores ou de espectadores. O avanço deste globalismo favorece normalmente a identidade dos mais fortes que se protegem a si mesmos, mas procura dissolver as identidades das regiões mais frágeis e pobres, tornando-as mais vulneráveis e dependentes. Desta forma, a política torna-se cada vez mais frágil perante os poderes económicos transnacionais que aplicam o lema ‘divide e reinarás’» (Papa Francisco, Fratelli tutti, 12).

Olhando para tantas situações contraditórias, de pobreza e guerra, de avanços e recuos, pode acontecer-nos desistir ou ceder à indiferença. Diz-nos Leão XIV que “assim como o Papa Francisco combateu a globalização da indiferença com uma cultura do encontro, hoje eu gostaria que começássemos, juntos, a combater a globalização da impotência com uma cultura da reconciliação. A reconciliação é uma maneira particular de nos encontrarmos. Hoje, devemos encontrar-nos, curando nossas feridas, perdoando-nos mutuamente pelo mal que fizemos e também pelo mal que não fizemos, mas cujos efeitos carregamos. Tanto medo, tantos preconceitos, grandes muros, mesmo invisíveis, existem entre nós e entre nossos povos, como consequência de uma história ferida. O mal transmite-se de uma geração para outra, de uma comunidade para outra. Mas o bem também se transmite e pode ser mais forte! Para praticá-lo, para colocá-lo de volta em circulação, devemos tornar-nos- especialistas em reconciliação. Devemos reparar o que está quebrado, tratar delicadamente as memórias sangrentas, aproximar-nos com paciência, ter empatia pela história e pela dor uns dos outros, reconhecer que compartilhamos os mesmos sonhos, as mesmas esperanças. Não há inimigos: apenas irmãos e irmãs. Esta é a cultura da reconciliação. Precisamos de gestos de reconciliação e políticas de reconciliação”.

Dias depois, o santo Padre, discursando na sede da FAO, nos 80 anos da sua fundação, constatava o óbvio: “É necessário, e extremamente triste, mencionar que, apesar dos progressos tecnológicos, científicos e produtivos, 673 milhões de pessoas no mundo vão para a cama sem comer. E outros 2,3 biliões não têm acesso a uma alimentação nutricionalmente adequada… Não é casualidade, mas sinal evidente de uma insensibilidade predominante, de uma economia sem alma, de um modelo de desenvolvimento questionável e de um sistema injusto e insustentável de distribuição de recursos. Numa época em que a ciência ampliou a expetativa de vida, a tecnologia aproximou continentes e o conhecimento abriu horizontes antes inimagináveis, permitir que milhões de seres humanos vivam – e morram – vítimas da fome é um fracasso coletivo, uma deriva ética, uma culpa histórica”.

Perante um fracasso tão grande pode advir a desistência, a impressão que pouco se pode fazer para mudar as situações de pobreza e de guerra. Se são muitos os que estragam e destroem, cabe-nos ser mais a construir, comprometidos em sujar as mãos em prol do bem comum, lembrando que o faminto, a pessoa miserável, é meu e teu irmão.


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 95/46, n.º 4823, de 22 de outubro de 2025

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