HomeCrónicasSofrimento encapuzado

O suicídio é, segundo a Organização Mundial da Saúde, uma das principais causas de morte em todo o mundo. Em Portugal, representa 11,7 mortes por cada 100 mil habitantes. Cresceu, aproximadamente, 22,4% nos últimos anos. Por outras palavras, em média, suicidam-se 3 pessoas em Portugal todos os dias.

Desesperança, solidão e pessoas em “enorme sofrimento”. São três “vetores” apresentados por Miguel Ricou, presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos Portugueses.

Quem deseja morrer encontra-se num sofrimento enorme, difícil de compreender, difícil de explicar, difícil de perceber por quem o rodeia. Não raras vezes, o suicídio é uma surpresa para a comunidade.

Falar sobre suicídio é “delicado” e “complexo”, mas também necessário. Não podem, nem devem, haver culpas atribuídas, mas como comunidade, devemos fazer um estudo de consciência sobre o que poderíamos ter feito para que os sentimentos daquele irmão não tivessem chegado àquele ponto, para que ele não se tivesse sentido sozinho e desamparado, para que tivéssemos conseguido perceber a tempo de evitar o acontecimento, como comunidade crente, em que falhámos para com aquele irmão?

O suicídio é difícil de antecipar e nem sempre seria possível evitá-lo, no entanto, temos o dever, como comunidade crente, de estar atentos a cada um, a cada sinal de solidão, ainda que encapuzada.

Cada vez que algo de errado acontece a um membro, todos, como comunidade, falhámos, todos. Somos membros de um grande corpo, um só corpo, e por isso, devemos cuidar de cada parte, seja ela a unha ou um braço. Somos responsáveis uns pelos outros. Se uma parte tem fome e não a sacia, a culpa é de todos, se outra parte não tem onde viver, é culpa de todos.

Temos um papel protetor perante todos os nossos irmãos sobre tudo aquilo que lhes possa causar dor ou desejo em abreviar a vida.

A eutanásia e a morte assistida, a par do suicídio comum, são a vontade de acabar com a vida, e se assim é, é porque algo de errado se passa, e não podemos dormir descansados sem cumprir a nossa parte atenta e cuidadora que nos cabe.

Se um irmão sofre, sofremos todos.


Raquel Assis, in Voz de Lamego, ano 95/43, n.º 4820, de 24 de setembro de 2025

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