Duas datas para celebrarmos a vida de são José, pai adotivo de Jesus, mas cuja missão fizeram dele um pai genuíno, verdadeiro, admirável. A 1 de maio, sublinhamos o seu trabalho. A 19 de março, por outro lado, sublinhamos a sua esponsalidade e paternidade, assumindo, com alegria e com amor, o facto de ser marido de Maria e pai de Jesus.
José é o homem do silêncio, melhor, dos sonhos e dos silêncios. Mas não é mudo, nem se furta ao diálogo ou às conversas habituais com outras pessoas, com o filho, com a esposa, com a família, com os vizinhos, com outros homens, no dia a dia, na altura do culto na Sinagoga ou nas reuniões orantes. Seria impensável que José fosse rezar e não falasse ou governasse a sua casa sem abrir a boca. Como pai de família cabe-lhe narrar a história da salvação, comunicar a Jesus a história de Adão e Eva, de Abel e Caim, de Abraão, Isaac e Jacob, a história de José do Egito, de Moisés, Arão e Miriam, de Samuel e de Saul, de David e Salomão, de Elias, Jeremias e Isaías, a história da criação e da libertação de Israel, a peregrinação do deserto até o povo entrar na terra prometida, o papel de Josué e dos anciãos, as tribos e a distribuição da terra, o tempo do(s) exílio(s), o pecado do povo e a misericórdia de Deus, a história de Judite e Ester e de Ana, de Dalila e Raquel e tantas outras histórias que compõem a história da salvação e recordam as maravilhas do Senhor Deus a favor do Seu povo.
O silêncio de José, como de Maria, é um silêncio “teológico”, bíblico. Os evangelhos não têm como objetivo falar-nos dos pais de Jesus, têm como objetivo fixar a história de Jesus, as Suas palavras, gestos, prodígios, a sua paixão, morte e ressurreição, a Sua postura no contacto e proximidade com todos, especialmente com as pessoas mais simples, mais pobres, mais frágeis, os desfavorecidos e desalentados, os excluídos e desprezados. Maria e José estão presentes em momentos-chave da vida de Jesus. José aparece ainda menos do que Maria, levando os estudiosos a concluir que já tinha morrido quando Jesus iniciou a Sua vida pública e daí a omissão dos evangelhos, com anotações esporádicas. Em nenhum pedaço do Evangelho, surgem palavras de José, não é audível o seu sim a Maria nem é audível o seu sim a Deus, mas é visível a sua resposta no acolhimento da sua esposa e no cuidado com o seu filho. Por outro lado, a presença de José, como a de Maria, é uma presença indelével em todo o Evangelho e em toda a vida de Jesus. Também nós carregamos, positiva ou negativamente, a presença dos nossos pais e há marcas tão mais profundas do que aquilo que, por vezes, queremos admitir ou de que tenhamos verdadeiramente consciência. Jesus é o que é, como verdadeiro homem, pela vida que levou em família, com José e Maria, com os demais familiares, amigos e vizinhos, com a comunidade judaica em que estava inserido. Jesus é filho de José, é carpinteiro, filho do carpinteiro. Jesus expressa e testemunha esta identidade filial com José.
Desde o início, José é envolvido no mistério da Encarnação e na fidelidade à vontade de Deus. O Evangelho mostra que é um homem justo, temente a Deus, capaz de ponderar com amor e com paciência, colocando-se à escuta, predispondo-se a aceitar os desígnios do Senhor.
Como qualquer marido, quando soube que Maria, sua esposa, estava grávida, há de ter vivido momentos de grande aflição, dúvida, revolta. Com esforço, seriamos capazes de ouvir os seus gritos e questionamentos: como é que foi capaz de me fazer uma coisa destas? Eu não merecia isto. Deus seja o meu juiz. Nesta situação, José poderia desgraçar a vida de Maria, condenando, sendo o acusador, expondo Maria perante a família e a comunidade, atirando a primeira pedra. O “destino” de Maria estava previsto, seria apedrejada. Em alternativa, a opção de José foi deixá-la, abandoná-la, com um filho no ventre. Por um lado, recairiam sobre ele as desonras, pois teria engravidado Maria, mesmo antes de coabitarem, e agora fugia às suas responsabilidades e fugiria como cobarde, deixando Maria e o menino sem proteção nem os cuidados de um marido e de um pai. Em todo o caso, esta opção é pacificadora, por envolver um caminho de perdão, assumindo (até) as culpas que não são suas. Mas Deus já o guiava com a Sua graça e com o Seu amor e em sonhos faz-lhe ver o grande mistério em que está envolvido. Conseguimos quase ouvir o clamor de José, agradecendo as graças concedidas por Deus: agora Senhor, agora eu sei que estás sempre comigo e nunca me abandonas!
Quem não se sente não é boa gente. Em tempos tão conturbados, o mais fácil é reagir, responder com a mesma moeda, gritar por vingança e destruir aqueles que nos recusam, nos humilham ou simplesmente pensam diferente de nós. Jesus é o Príncipe da Paz! Em José, testemunhou a docilidade à voz de Deus Pai, na opção clara pelo que apazigua a nossa relação com os outros. José, o homem do sonho e do silêncio, é também um modelo para a paz e concórdia. Como não escutar o seu exemplo?
Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/17, n.º 4842, de 18 de março de 2026



