Home•Destaques•Servir com alegria

Num filme biográfico de santa Bakhita, no decorrer da trama, uma das noviças, Carolina, chama à parte a futura santa, para desabafar. Esta noviça deixa-se tocar pelo exemplo de Bakhita que, em todas as situações, se alegra e se diverte, sempre com um sorriso nos lábios. Quando Bakhita cuidava dos “leprosos”, doentes de varíola, sem repugnância, com dedicação, proximidade e sorridente, gera admiração na noviça. Já no convento, e casa de acolhimento de crianças abandonadas, a mesma atitude dócil e agradável com todos. Bakhita, quando é chamada à presença do Bispo local e da Madre superiora, para ser autorizada a tornar-se freira, sobre o voto de obediência, respondeu que foi obediente a vida inteira, servindo aos diversos patrões. Portanto, está habituada a servir e para ela servir é um modo de vida.

Carolina tem dúvidas sobre a sua vocação. Quando se prepara para fazer os seus votos, hesita, está confusa. Por essa razão, conversa com Bakhita, expressando as suas interrogações, dizendo que não está preparada para servir a Deus e aos mais frágeis. Bakhita contrapõe dizendo que a vida religiosa é, de facto, um serviço de amor, é uma alegria amar a Deus e cuidar dos seus filhos mais pequeninos. Triste, comovida, Carolina verbaliza o que lhe vai na alma, sublinhando a diferença: para mim, servir sempre foi um peso, uma obrigação, e nunca uma alegria.

Para haver alegria no serviço, este tem de ser expressão, tradução e consequência do amor, do amor de Deus, acolhido, concretizado no amor ao próximo. Sim, se não traduzir e expressar o amor de Deus, o serviço será um fardo pesado, uma obrigação imposta. Quem anda por gosto não cansa. Em qualquer trabalho, se é feito como obrigação, porque tem de ser, tudo se torna pesado, desagradável, sem fim à vista. Pelo contrário, é, creio, a sensibilidade de todos, quando fazemos por gosto até o tempo passa mais rápido. O ideal é aliar o amor e o serviço. Não é uma opinião, é uma constatação. Isso não significa que tudo o que se faça por amor não exija sacrifício e sofrimento. Outro ditado popular é elucidativo: quem se sujeita a amar, sujeita-se a padecer. Porque quando amas, não te poupas a esforços para cuidar, para servir, para aliviar o sofrimento daqueles que amas, substituindo-os se possível, como o fazem os pais em relação aos filhos. Quando uma mãe se levanta cinco vezes, durante a noite, para ir ver do seu bebé que chora, não o faz com alegria, fá-lo por amor, é o amor que lhe dá forças, mesmo quando está esgotada, mas basta um pequeno sorriso do seu bebé e as forças renovam-se e a alegria preenche o seu coração.

Numa das refeições, Jesus recomenda aos Seus discípulos que não procurem as honras e os primeiros lugares e que convidem aqueles que não têm com que retribuir. «Serás feliz por não terem como retribuir-te, pois ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos» (Lc 14, 14).

São Paulo recorda as palavras de Jesus. “Em tudo vos mostrei que é trabalhando assim que devemos acudir aos mais fracos. E recordo-vos as palavras que o próprio Senhor Jesus disse: «Há mais felicidade em dar do que em receber»” (Atos 20, 35).

A vida de Jesus alimenta-se da vontade de Deus Pai, vivendo na Sua intimidade, realizando as obras do Pai, mostrando-nos o quanto nos ama. Jesus traduz o amor levado às últimas consequências. É um amor maior que guia Jesus, o amor e a comunhão com o Pai. A Quaresma que atravessamos é um desafio constante à penitência, arrependimento, mudança de vida, transformação do coração que se expressará no cuidado por todos, especialmente, pelos mais frágeis. Mais que palavras, a transformação significa identificação a Jesus Cristo, à Sua de viver. Quarenta dias que caminhamos até à alegria plena da Páscoa, vida nova, vida eterna em Deus. Cada instante, porém, já é antecipação desta alegria. Caminhamos porque temos como certo o amor de Deus, temos como certo a vitória da vida sobre a morte, da alegria sobre o sofrimento, do bem sobre o mal. Não caminhamos sozinhos. Não caminhamos na escuridão, caminhamos com o Senhor Jesus, e uns com os outros, somos iluminados pelo Seu amor. Quaresmamos para nos purificarmos do egoísmo e da prepotência, da inveja e das sedes de vingança, alimentamo-nos d’Ele, deixando que a nossa sede seja de água vida, que a nossa sede anseie pela Sua presença. Quer vivamos, quer morramos, façamo-lo em nome de Jesus, pelo Seu amor. Se com Ele morremos, com Ele ressuscitaremos. O amor leva-nos ao serviço; o serviço por amor sintoniza-nos com Deus.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/18, n.º 4843, de 25 de março de 2026

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