Certamente que não. Não é possível a paz sem o perdão. Melhor, sem amor.
O contrário de amor é o egoísmo. Este gera inveja e ódio, gera divisão e discórdia, conduz ao conflito e à guerra, desde o núcleo familiar, comunitário, até aos conflitos regionais e internacionais. Só o amor abre portas à compreensão, à tolerância, à inclusão, à solidariedade, ao compromisso com a verdade e justiça. Sem amor, a indiferença e exclusão aumentam, a vingança ganha terrena, a violência multiplica-se, as injustiças acentuam-se, a maldade torna-se banal, a morte dos outros será uma insignificância, a destruição da criação tornar-se-á um passatempo.
Só o amor constrói, edifica, faz progredir, só o amor poderá alcançar a paz.
Na Quaresma o desafio da conversão e da penitência é sobejamente sublinhado. Este desafio enquadra o perdão, a misericórdia, a reconciliação, a mudança de vida. Obviamente que não é uma estratégia (malévola) da Igreja e dos padres para amedrontar ou subjugar os crentes, faz parte do Evangelho, da pregação e da vida de Jesus. A acentuação da quaresma é transversal a todo o ano litúrgico. Jesus vem para salvar, redimir, unir, congregar, reconciliar. O azedume, o ódio, a inveja e o desejo de vingança só acentuam clivagens diabólicas.
Jesus sabe que só o perdão pode sarar feridas, podem curar divisões, pode conduzir os desavindos à fraternidade.
O ressentimento e o remorso corroem-nos por dentro, destroem o ânimo, a alma, tornam-nos amargos, ingratos, em pólvora, prontos a explodir. O ressentimento, pelas ofensas sofridas, que os outros nos infligiram, mais consciente ou mais inconscientemente, degrada a nossa confiança, não apenas em quem nos ofendeu, mas também nas demais pessoas. O remorso, o mal que infligimos aos outros ou em nós, faz-nos cair num poço sem fundo, cuja melancolia nos definha. Precisamos de perdoar, para que o ressentimento não nos anule. Precisamos de ser perdoados para que o remorso não sabote a nossa alma.
O nosso perdão pode até ser limitado, pois o pecado só Deus pode perdoar. Mas Deus perdoa, basta a nossa disponibilidade para reconhecermos a nossa infidelidade e nos deixarmos reconstituir pelo Seu amor, pela Sua misericórdia. Quando não conseguirmos perdoar, pois nem sempre é fácil, peçamos que Deus perdoe por nós e nos dê o descanso do coração para vivermos em paz e para um dia sermos capazes de partilhar o perdão que Deus nos dá com aqueles que nos ofenderam.
Na oração do Pai-nosso, Jesus é taxativo: “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. E Jesus conclui, dizendo: “Porque se perdoardes aos homens as suas faltas, também o vosso Pai celeste vos perdoará. Mas se não perdoardes aos homens, também o vosso Pai não vos perdoará as vossas faltas (Mt 6, 7-15).
São muitas as páginas em que Jesus desafia ao perdão, sempre, setenta vezes sete (cf. Mt 18, 21-22). Perdoai e ser-vos-á perdoado (cf. Lc 6, 36-38).
Perdoar terá de ser uma das marcas do cristão, para nos identificarmos com Jesus. E, seguindo-O, cabe-nos tomar a iniciativa. “Se fores apresentar a tua oferta sobre o altar e ali te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão e vem depois apresentar a tua oferta” (Mt 5, 23-25).
Perdoar alivia a nossa mente e o nosso coração. O nosso rancor faz-nos adoecer. Como bem relembra Augusto Cury, perdoar é, antes de mais, um benefício para nós próprios, de contrário, sentamo-nos à mesa com os nossos inimigos e levamo-los connosco para o sono. O desassossego não nos permite o descanso nem a paz. Pessoas de paz, constroem a paz. Pessoas rancorosas e egoístas promovem a discórdia e o caos.
Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/15, n.º 4840, de 4 de março de 2026



