Responderia sem hesitações que sim!
Mas afinal, talvez possamos perceber que não.
Para mim, as tecnologias, descobertas científicas, redes sociais, plataformas digitais seriam moralmente neutras, a sua utilização poderá ser boa ou má. Pensava assim. A visão do papa Leão XIV é diametralmente diferente.
Diz o santo Padre: “As inovações tecnológicas – entre elas a inteligência artificial – não são neutras: podem aumentar a participação e a justiça, ou, pelo contrário, agravar desigualdades, controle e exclusão. Por isso, devem ser avaliadas a partir duma pergunta decisiva: contribuem realmente para que as pessoas e os povos cresçam em humanidade e fraternidade, no respeito pela Casa comum e pelas gerações futuras?” (85).
O seu Predecessor, o Papa Francisco, já tinha alertado para os novos guetos criados no mundo digital. Com efeito, os nossos amigos são os que pensam como nós, seguimos perfis e páginas que nos são familiares, perfilhando ideias semelhantes. Por outras palavras, procuramos comprovar o que pensamos e não o contraditório ou a complementaridade. As tecnologias, através da introdução de algoritmos leem os nossos gostos, o tempo que paramos em determinada publicação, o que pesquisamos, a música que ouvimos e, na volta, dão-nos apenas o que combina connosco, com a nossa filosofia de vida, sem margens para discordâncias ou diferenças. Ora, como acentuou Leão XIV, a verdade “não é um território a defender, mas um bem a partilhar”. Contribuímos e acolhemos o contributo dos outros e assim enriquecemos a nossa visão do mundo.
O Papa é claro: “não podemos considerar a IA moralmente neutra. Na realidade, todo o artefacto técnico traz consigo escolhas e prioridades: o que mede, o que ignora, o que otimiza e a forma como classifica pessoas e situações. Se um sistema for concebido ou utilizado de modo a tratar certas vidas como menos dignas, ou a excluí-las sem possibilidade de apelo, não se trata de um mero instrumento ‘a ser bem utilizado’: introduz já um critério que contradiz a dignidade inalienável da pessoa. Por isso, o discernimento ético não pode limitar-se a perguntar se utilizamos um determinado sistema para um fim bom ou mau, mas deve também questionar-se sobre a forma como foi projetado e que ideia de pessoa e sociedade está inscrita nos dados e nos modelos que o orientam” (104).
Uma das preocupações e dos riscos é que as IA’s (inteligências artificiais) sejam dominadas por multinacionais sem regulamentação estatal ou supranacional, ao nível da União Europeia ou das Nações Unidas (ONU). Temos visto como as empresas tecnológicas se agrupam e as mais poderosas, economicamente falando, compram as que ameaçam o seu monopólio. É um desafio a enfrentar. Os ricos continuam a precaver-se, a dominar e a colocar a tecnologia ao serviço dos seus interesses.
Nas eleições do Brasil, como antes nas dos EUA, os algoritmos, as IA’s estão a ser usadas pelos candidatos para gerar e disseminar notícias falsas (fake news). Dois candidatos, de polos opostos, dominam a comunicação social, a aparição nas redes sociais, ao ponto de outro candidato apelar aos brasileiros para romperem aquela bolha, permitir que outros pudessem expressar e fazer chegar a mensagem à maioria da população. Entretanto, o candidato alternativo conseguiu romper a bolha, multiplicando visualizações e mobilização. Logo, as duas referidas candidaturas vieram acusar esta terceira de eventual trapaça. Um dado evidente: acusam porque sabem como se faz!
Leão XIV é taxativo: “Não podemos limitar-nos a invocar a moralização da máquina, o chamado ‘alinhamento’ da IA com os valores humanos, sem termos a coragem de impor uma condição adicional: a possibilidade de discutir o código ético a ser utilizado, submetendo-o a critérios de justiça social partilhada. Caso contrário, quem controla a IA imporá a própria visão moral, que se tornará a infraestrutura invisível dos sistemas. Não precisamos de uma IA mais moral, se esta moral for decidida por poucos. Precisamos de uma política mais presente, capaz de reduzir a velocidade onde tudo se acelera e de proteger os espaços onde as comunidades ainda podem participar e questionar-se” (107).
Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/40, n.º 4865, de 9 de setembro de 2026



