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Sê sal, sê luz, sê cristão!

O discípulo de Jesus não pode seguir na correnteza da moda ou da opinião pública, pois esta tanto pode ser positiva e inclusiva, como destrutiva e desagregadora. Podemos até não pisar terra firme e encontrarmo-nos sobre as águas nos mares das Galileias do nosso tempo, podemos até ser apanhados por vendavais e tempestades, mas a referência, a Luz, o farol que nos guia, é Jesus Cristo, e Ele garante-nos que nada nos separará do Seu amor. Ele estende-nos a mão. Atrai-nos com o Seu olhar. Não nos livra das dificuldades. Sabermos, contudo, que Alguém está por perto, conforta-nos e dá-nos ânimo para prosseguir, permite-nos enfrentar o que nos assusta e o que nos faz sofrer. Precisamos dos amigos, dos pais, da família, para que nos deem coragem, nos animem, estejam connosco e nos amem, independentemente das variáveis da nossa vida. O maior dos sofrimentos e das doenças do nosso tempo é precisamente a solidão.

Vivemos numa época com diversos riscos: cada um querer salvar-se sozinho; seguir por atalhos, facilidades imediatas sem meta nem objetivos; querer apenas o que os outros querem, fazendo coro com a opinião generalizada; afastamento de tudo o que possa sugerir esforço, sacrifício, sofrimento. Obviamente que deveremos combater todo o mal, e livrar-nos do sofrimento, mas este é inevitável. Quem se sujeita a amar, sujeita-se a padecer. Mas só o amor nos livra do cinismo, nos livra de uma vida sem sal, sem luz, sem sentido, e da solidão. A vida não é um descafeinado permanente. Como alguns filósofos sublinham, queremos o sabor mas sem as respetivas consequências: comidas e bebidas light, café sem cafeína, adoçante sem açúcar. Amor livre, ocasional, sem amarras, sem compromissos duradouros, sem porto. Quando nos damos conta estamos sós. E a vida perde o seu encanto. Há pessoas que ficam imediatamente doentes quando pensam que vão ficar sozinhas. Outras lamentam-se quando é demasiado tarde para cultivar amizades, para valorizar a família, para dar prioridade aos afetos e à proximidade. Não te isoles! Quem se encerra no seu casulo acabará por se afastar da luz, a que vem de dentro e a que vem do alto.

No último Domingo, o quinto do tempo comum, Jesus assinalava a identidade dos discípulos: serem sal da terra e luz do mundo. Vós sois para o mundo o que o sal é na comida: tempero, sabor, sentido. Sois no mundo o que a luz é no meio das trevas: caminho, orientação, transparência.

E como ser luz e sal, que dá tempero e ilumina a vida, no nosso dia-a-dia?

Podemos responder com uma belíssima página de Isaías: «Reparte o teu pão com o faminto, dá pousada aos pobres sem abrigo, leva roupa ao que não tem que vestir e não voltes as costas ao teu semelhante. Então a tua luz despontará como a aurora e as tuas feridas não tardarão a sarar… Se tirares do meio de ti a opressão, os gestos de ameaça e as palavras ofensivas, se deres do teu pão ao faminto e matares a fome ao indigente, a tua luz brilhará na escuridão e a tua noite será como o meio-dia». Como sublinha Jesus no Evangelho: as vossas/nossas boas obras serão a luz que brilha diante dos homens e iluminam o mundo.

O cristianismo não é um exercício intelectual, uma abstração, ou uma generalidade. É uma realidade concreta, situada no tempo e no espaço. O ponto de partida e de chegada, o chão que nos ampara, é Deus e o Deus de Jesus Cristo. Deus connosco. Próximo, e que Se faz estrada e vem sujar as mãos na terra, envolvendo-se com a nossa fragilidade e finitude. Procura-nos.

A fé cristã tem um rosto vivo, Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Não é, como em alguns ambientes religiosos se crê, uma religião do Livro. É uma Pessoa, um Acontecimento, que se traduz e atualiza na nossa vida, na nossa história. É Jesus Cristo, numa VIDA de entrega, de amor, numa história que se mistura com a nossa. É mistério. É dádiva. Ele entrega a Sua vida para que nós tenhamos vida e vida em abundância (cf. Jo 10,10). É na Sua morte e ressurreição que ancoramos a nossa fé, a nossa militância crente. A fé une-nos uns aos outros e compromete-nos com o bem de todos. Não é possível, sob pena de nos tornarmos mentirosos, separar a fé das obras e da vida. A fé faz-nos olhar para Deus com amor. Se olhamos para Deus com Amor, acolhendo-O na nossa vida, não poderemos desprezar a vida dos nossos irmãos, que são ROSTO e PRESENÇA de Deus, aqui e agora (hic et nunc).


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/12, n.º 4837, de 11 de fevereiro de 2026

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