Sim, podemos. Também podemos pedir mais uma cerveja e fica tudo na mesma. Ninguém morre. No meio das luzes por entre as notícias que davam conta de Cristiano Ronaldo ser apenas o 9.º português a entrar na Casa Branca, em Washington, nos EUA, continuamos bastante adormecidos perante os flashes de gente muito rica e que dança alegremente perante os nossos narizes. Com propósitos que até podem legitimar este bailarico: a procura pela paz. Há que suspirar – e muito – para não nos irritarmos.
Passou muito despercebida a informação de que Ronaldo comprou, recentemente, posições relevantes num grupo de comunicação chamado Media Livre, que detém títulos como Record, Correio da Manhã, Correio da Manhã TV, NOW, entre outros. Foi uma jogada de mestre, ao nível de um pontapé de bicicleta na final da Liga dos Campeões. O Correio da Manhã (CM), sempre tão atento à vida amorosa de Ronaldo e das polémicas em torno dos irmãos, deixou subitamente de se interessar pelo espetáculo mediático mais deprimente que a fama interplanetária consegue atrair. Agora, o CM apenas dá conta dos grandes feitos do herói nacional. Ali, menina não anda, mas também não paga. É muito curioso.
Entretanto, Ronaldo juntou-se ao clã da Arábia Saudita e começou a contar notas pesadas. Os registos futebolísticos são impressionantes, os títulos conquistados nem por isso, mas o que fica por debaixo da sombra é precisamente aquilo que não se discute, porque parece que podemos ofender um jogador que é, de longe, o melhor de sempre de Portugal. A troco de muitos milhares de dólares, Cristiano aceitou ser cúmplice de um regime político ditatorial, com uma aversão monumental à liberdade de expressão, que manda executar os dissidentes, e que olha para as mulheres com um mero artefacto da realidade masculina. Tanto aceitou que esta viagem aos EUA, onde não ia desde aquele episódio muito mal explicado com aquela senhora em Las Vegas, foi patrocinada por um passaporte diplomático, com toda a proteção legal, numa autêntica manobra de charme político, com a cereja em cima do bolo a ser o cortejo a esse amigo da democracia chamado Donald Trump.
Se Cristiano decide, em diversas entrevistas, assumir-se como embaixador de Portugal, seria bom saber que, nesta viagem de estudo à Casa Branca, não me representou. Nem a mim, nem a dois ou três que ainda pensam que o dinheiro ilimitado não pode passar em cima de tudo.
Fábio Ribeiro, in Voz de Lamego, ano 95/52, n.º 4829, de 3 de dezembro de 2025



