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Conservação do retábulo-mor da igreja de Arcos

Em finais do ano de 2024, o Departamento para os Bens Culturais, Patrimoniais e Arte Sacra da Diocese de Lamego foi contactado para dar início aos trâmites necessários para a correta intervenção no altar-mor da igreja paroquial de Arcos, no concelho de Tabuaço. Após a recolha e análise de vários orçamentos, a comunidade pôr mãos à obra para angariar os fundos necessários para a empreitada.

Com o esforço geral, entre almoços caritativos e donativos vários de residentes e de quem se encontra na diáspora, materializou-se em junho de 2026 o sonho de vários não só em honra dos antepassados que deixaram tamanha peça em herança comunitária, mas também, e principalmente, na dignificação do lugar onde se conserva o Santíssimo Sacramento da Eucaristia.

No dia 4 de junho, solenidade do Corpo de Cristo, terminada a celebração da Eucaristia na sede da Junta de Freguesia – que gentilmente disponibilizou o espaço para as Missas dominicais enquanto decorreu a fase final do restauro – a píxide com as partículas consagradas foi levada numa procissão improvisada com destino ao sacrário-mor, como quem volta a casa ansioso depois de obras feitas.

A comunidade de Arcos deixa uma nota de profundo agradecimento ao doutor Paulo Magalhães pela execução brilhante da intervenção no retábulo-mor da igreja e pelo profissionalismo aliado ao humanismo que demonstrou durante todo o processo.

Sem demoras, deixamos a palavra ao ilustre historiador de arte sacra doutor Pedro Vasconcelos Cardoso.

Pe. Tiago Machado


Está finalizada a conservação e restauro de mais um retábulo da Diocese de Lamego da fase do Barroco Nacional, ou Barroco Pleno, neste caso de inícios do século XVIII, referente a um dos períodos de maior aparato e criatividade da talha portuguesa. Este exemplar pertence à igreja paroquial de Arcos, concelho de Tabuaço.

Trata-se de um retábulo com um só andar, de três tramos, cujo intercolúnio é definido por uma coluna de cada lado, adotando deste modo uma tipologia e um sistema compositivo bastante usuais na época.

No entanto, tem entalhe competente, de artista, provavelmente da Diocese, com alguns méritos, sendo apenas de lamentar o facto de já não ter a talha primitiva do remate, provavelmente removida quando também retiraram o teto de 25 caixotões, como florões, da capela-mor. Este tinha sido executado em 1713 e era da autoria do artista regional, de Arcozelo da Torre, Estevão Leitão não tendo chegado aos dias de hoje.

Destacamos a devolução ao conjunto retabular da mesa de altar, ainda que esta contenha, já da segunda metade do século XVIII, um frontal rococó, que se encontrava adossado ao retábulo desde o momento em que a mesa foi amputada do conjunto. De realce é ainda o sacrário, que se impõe pela sua movimentada envolvente barroca, de anjos e Fénix entre folhas de acanto enroladas, ou ainda as figuras que se encontram no embasamento, nas laterais do retábulo, como se fossem atlantes a suportar a base de todo o conjunto. Um último destaque merece o bem desenhado e articulado trono de degraus, ao centro no camarim, que termina numa chamada glória radial, onde se podia expor o Santíssimo numa custódia.

Pretendeu-se fazer o restauro deste retábulo dentro dos princípios éticos vigentes nas atuais linhas de atuação da conservação e restauro, restituindo a dignidade que o retábulo pede, sem desvirtuar as marcas da passagem do tempo que lhe dão a autenticidade por ser uma antiguidade. É importante para a Diocese que esta deontologia da conservação e restauro seja seguida e assim se valorize a abundante arte sacra que a Mitra Lamecense possui ainda não afetada por intervenções modernas, mas que podem, caso não seja utilizada a mais correta metodologia, desvirtuar as peças de arte sacra, que se constituem como o maior património de toda a região.

O processo esteve a cargo da empresa Paulo Magalhães – Conservação e Restauro Lda., com o apoio técnico, em termos de História da Arte da Diocese, de Pedro Vasconcelos Cardoso, técnicos que também acumulam a experiência de docência no curso de Conservação e Restauro da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa do Porto.

Convidamos todos a passarem pela Paróquia de Arcos, para apreciarem o recém intervencionado retábulo barroco na sua maior magnificência, próxima do que foi em início do século XVIII, mas sem perder a sua autenticidade temporal de mais de 3 séculos.


Pedro Vasconcelos Cardoso, in Voz de Lamego, ano 96/29, n.º 4854, de 10 de junho de 2026

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