HomeDestaquesRegresso a Judas!

… não o Iscariotes, não o Tadeu, mas o irmão de Tiago, irmão do Senhor. Portanto, parente próximo de Jesus. Como em relação a Tiago, também em relação a Judas, irmãos do Senhor, se crê que só se tornaram “crentes” depois da ressurreição e das aparições de Jesus. Também por aqui poderemos afirmar que, enquanto estamos vivos, estamos a tempo de nos deixarmos tocar pela misericórdia de Deus, convertendo-nos de coração.

A autoria da carta leva-nos a Judas, irmão do Senhor, com a ressalva, como em outros textos bíblicos, que poderia ter sido redigida/concluída por alguém próximo ou pela comunidade a que pertence o autor. Certo é que a comunidade cristã é, mais direta ou mais indiretamente, co-autora das cartas. Sendo destinatária, a comunidade influencia a direção da epístola, já que os seus autores abordam temas problemáticos dentro desta ou daqueloutra comunidade ou os riscos que a comunidade corre quanto à ortodoxia do Evangelho ou orto práxis dos seus membros. A atribuição da autoria a alguém conhecido, levaria a ser escolhido, não Judas, mas talvez um dos Apóstolos. Daí que a inclinação recaia em Judas, irmão de Tiago, irmão do Senhor, já que não é figura “dominante” na comunidade inicial dos discípulos de Jesus. Daí também que não tivesse sido uma carta muito valorizada.

O autor dirige-se aos cristãos em geral, provavelmente judeus-cristãos da diáspora. Tinham-se infiltrado falsos profetas na comunidade a quem a carta é destinada. O autor censura a blasfémia contra Jesus e contra os anjos, mas também a perversão moral, contrapondo o valor salvífico da fé, o mistério pascal de Jesus, centro, fundamento e referência da vida cristã. A linguagem é apocalíptica, o autor anuncia o julgamento dos que incendeiam a comunidade com falsas doutrinas. A segunda epístola de são Pedro recorre à forma e ao conteúdo desta Carta de são Judas, o que permite perceber a sua antiguidade e como era conhecida das comunidades cristãs.

Mas escutemos as palavras do próprio: “A vós sejam concedidas em abundância a misericórdia, a paz e o amor. Amados meus, embora já tivesse uma grande vontade de vos escrever a respeito da nossa comum salvação, vi-me na necessidade de o fazer para vos exortar a combater pela fé que, de uma vez para sempre, foi transmitida aos santos. Com efeito, infiltrou-se no meio de vós uma certa gente que, desde há muito, está inscrita para ser condenada: uns ímpios que trocaram a graça do nosso Deus pela devassidão, renegando o nosso único soberano e Senhor, Jesus Cristo”.

As orelhas de quem escuta hão de arder, tal a dureza das palavras. Mas atenção, não nos coloquemos já de fora. A palavra de Deus é para ser escutada pelo coração, acolhida, meditada, para que ilustre, ilumine e comprometa, no bem e na verdade, as nossas escolhas. Há alguns que “seguiram o caminho de Caim e, por amor ao dinheiro, deixaram-se cair nos desvarios de Balaão… Essa gente é uma nódoa nas vossas refeições fraternas, banqueteando-se convosco sem temor e apascentando-se a si mesma. São nuvens sem água arrastadas pelo vento; árvores de fim de outono, sem fruto, duas vezes mortas, desenraizadas; impetuosas ondas do mar, que espumam a sua própria ignomínia; estrelas errantes, para as quais estão reservadas para sempre as trevas mais tenebrosas”.

São palavras duras de escutar, tais os termos usados. Não há meias palavras, nem insinuação, são incisivas, diretas, desafiadoras. Ou sim, ou sopas. “Essa gente anda sempre a murmurar e a queixar-se da sua sorte, e vive de acordo com as suas paixões. Embora a sua boca profira palavras arrogantes, são bajuladores quando lhes interessa… É essa gente que provoca divisões e que segue apenas os impulsos naturais, por não ter consigo o Espírito. Vós, porém, amados meus, edificando-vos uns aos outros na vossa santíssima fé e rezando no Espírito Santo, conservai-vos no amor de Deus, esperando a misericórdia do nosso Senhor Jesus Cristo, que conduz à vida eterna. Sede misericordiosos para com aqueles que vacilam e salvai os outros, arrancando-os ao fogo; sede misericordiosos para com eles, mas ainda assim com cautela, detestando até a túnica que está contaminada pelo seu corpo”.

Conservemo-nos no amor de Deus. Sejamos misericordiosos, comunicando a salvação que nos vem por Jesus Cristo.


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/30, n.º 4855, de 17 de junho de 2026

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