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Queres a paz, prepara-te com a paz

O papa Francisco deixou-nos uma expressão que ecoa repetidamente: vivemos a terceira guerra aos pedaços! Acentuam-se os focos de violência entre nações. Vale o que valerá: a ingerência política e militar dos EUA na Venezuela, capturando o líder de uma nação independente, pode sugerir a imposição da paz, obrigando outros pela força, pela ameaça, pelo medo ou dando azo para que outras potências vejam sancionadas as suas ações, como a Rússia em relação à Ucrânia e à Europa, como a China em relação a Taiwan, ou o estado islâmico em vários países do Médio Oriente. Como as crianças, se uns podem porque é que os outros não hão fazer o mesmo?!

Na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz, o Papa Leão XVI reitera a necessidade de acolher a paz, nas palavras e nos gestos, em contraposição com a preparação para a guerra. “O contraste entre as trevas e a luz não é apenas uma imagem bíblica para descrever o sofrimento do qual está a nascer um mundo novo: é uma experiência que nos atravessa e nos surpreende diante das provações que encontramos nas circunstâncias históricas em que vivemos. Ora, para não afundarmos na escuridão, é necessário ver a luz e acreditar nela… A paz existe, deseja habitar-nos, tem o poder suave de iluminar e alargar a inteligência, resiste à violência e a vence. O Ressuscitado introduziu-nos neste horizonte. Santo Agostinho exortava: «Se quereis atrair os outros para a paz, tende-a vós primeiro; sede vós, antes de tudo, firmes na paz. Para inflamar os outros, deveis ter dentro de vós a luz acesa»”.

Jesus continua a dizer bem alto, a quem prepara a guerra: «Mete a espada na bainha» (Jo 18, 11; cf. Mt 26, 52). Com efeito “a paz de Jesus ressuscitado é desarmada, porque desarmada foi a sua luta, dentro de precisas circunstâncias históricas, políticas e sociais”.

O desejo da paz é intrínseco a uma vida tranquila e segura, onde as relações humanas se fortalecem, no trabalho, no descanso, na festa, nos encontros, sem a ameaça constante da violência. O medo reina da tal forma que apostar no armamento será a resposta mais segura para garantir a paz. “Não por acaso, continua o Papa Leão XIV, os repetidos apelos para aumentar as despesas militares – e as escolhas que disso decorrem – são apresentados por muitos governantes com a justificativa da periculosidade alheia. Na verdade, a força dissuasiva do poder e, em particular, a dissuasão nuclear, encarnam a irracionalidade de uma relação entre os povos baseada não no direito, na justiça e na confiança, mas no medo e no domínio da força…. Ao longo de 2024, as despesas militares a nível mundial aumentaram 9,4% em relação ao ano anterior, confirmando a tendência ininterrupta dos últimos dez anos e atingindo o valor de 2,72 biliões de dólares, ou seja, 2,5% do PIB mundial”. No último ano, os EUA têm desafiado, quase impondo, que os países da NATO aumentem o investimento em armamento para 5% do PIB nacional. E, veja-se, os EUA serão dos principais produtores e vendedores. Por outras palavras, beneficiam com a guerra, com o armamento, numa lógica aparente de procura da paz.

Como evidencia o Papa, acolhendo a reflexão de santo Agostinho, “«quem ama verdadeiramente a paz ama também os inimigos da paz». Assim, santo Agostinho recomendava não destruir pontes e não insistir com repreensões, preferindo a via da escuta e, na medida do possível, do encontro com as razões dos outros”.

O caminho terá de ser o de Jesus, da bondade, da fragilidade que desarma. “A bondade é desarmante. Talvez por isso Deus Se tenha feito criança. O mistério da Encarnação, que tem o seu ponto mais extremo de esvaziamento na descida aos infernos, começa no ventre de uma jovem mãe e manifesta-se na manjedoura de Belém. «Paz na terra», cantam os anjos, anunciando a presença de um Deus indefeso, pelo qual a humanidade só pode descobrir-se amada cuidando d’Ele (cf. Lc 2, 13-14)”.

Cabe-nos acolher a paz que Jesus nos traz, não pela preparação da guerra, mas pelo contágio das palavras e dos gestos que assumam e traduzam a paz, a bondade, o serviço aos irmãos, pois neles cuidamos ou maltratamos o próprio Cristo.


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/07, n.º 4832, de 7 de janeiro de 2026

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