Durante um Mundial, pessoas de diferentes países, culturas, religiões e línguas sentam-se lado a lado para viver a mesma emoção. Durante noventa minutos, celebram um golo, sofrem uma derrota ou sonham com uma vitória. O futebol tem essa rara capacidade de unir aquilo que tantas vezes parece separado. Mas nem sempre é assim.
Ao mesmo tempo que assistimos a gestos de fair play, de respeito e de solidariedade entre atletas e adeptos, continuamos a testemunhar episódios que nos recordam o pior da condição humana. Insultos racistas dirigidos a jogadores, comentários xenófobos nas redes sociais, mensagens de ódio contra pessoas apenas pela sua origem, cor da pele ou religião continuam a fazer parte da realidade do desporto. E é precisamente nestes momentos que importa recordar que o futebol não é uma realidade à parte da sociedade. O que acontece nos estádios e nas plataformas digitais reflete muitas vezes aquilo que somos enquanto comunidade. Por detrás de cada comentário ofensivo existe uma pessoa que o escreve. Mas do outro lado existe também uma pessoa que o recebe.
Por vezes esquecemo-nos disso. Esquecemo-nos de que os jogadores que vemos nos ecrãs não são apenas atletas de elite. São seres humanos. Têm família, filhos, pais, amigos. Sentem orgulho, alegria, tristeza e dor como qualquer um de nós. Nenhum talento desportivo, nenhuma fama e nenhum sucesso justificam que alguém seja alvo de humilhação ou discriminação.
O direito reconhece precisamente essa realidade humana. A nossa Constituição protege a liberdade de expressão, mas protege igualmente a dignidade da pessoa humana, a igualdade e o respeito por todos os cidadãos. Numa sociedade democrática, ninguém pode ser discriminado em razão da sua origem, nacionalidade, etnia ou religião.
Por isso, quando determinadas expressões deixam de constituir mera opinião e passam a promover o ódio, a discriminação ou a violência, podem surgir consequências jurídicas. A lei existe para proteger direitos fundamentais e para afirmar que existem limites que não devem ser ultrapassados.
Contudo, seria ingénuo acreditar que a solução passa apenas pelos tribunais ou pelas sanções. O combate ao discurso de ódio começa muito antes.
Começa em casa, quando os pais ensinam os filhos a respeitar quem é diferente. Começa na escola, quando se educa para a cidadania e para a convivência. Começa nos clubes desportivos, quando se transmite aos mais jovens que ganhar é importante, mas respeitar o adversário é essencial. Começa também em cada um de nós, sempre que escolhemos não alimentar discursos de intolerância.
Talvez seja precisamente essa a maior lição que o futebol pode oferecer. Num relvado coexistem atletas de diferentes nacionalidades, culturas e histórias de vida, todos unidos por regras comuns e pelo respeito mútuo. O jogo só existe porque existem regras, mas também porque existe reconhecimento da dignidade do adversário.
Quando um Mundial mobiliza milhões de pessoas em todo o planeta, vale a pena refletir sobre a mensagem que queremos transmitir às gerações mais novas. Queremos que recordem apenas os resultados e os troféus? Ou queremos que aprendam que a verdadeira grandeza do desporto está na capacidade de respeitar os outros, mesmo quando vestem uma camisola diferente da nossa?
O apito final encerra cada partida. Mas a construção de uma sociedade mais tolerante, mais justa e mais humana é um jogo que continua todos os dias. E esse é um campeonato em que todos somos chamados a participar.
Karen Vingadas, in Voz de Lamego, ano 96/30, n.º 4855, de 17 de junho de 2026



