Sendo a infância considerada uma etapa fundamental para o desenvolvimento humano, que influencia a estrutura física, a saúde mental e a capacidade cognitiva, esta etapa deveria ser sinônimo de alegria, aprendizagem e segurança para todas as crianças. No entanto, para muitas crianças a realidade é outra, e esta fase acaba por ser marcada por medos e silêncio, enquanto vítimas de maus tratos, onde lhes é roubada a inocência e lhes é hipotecado o futuro. Cada vez mais se torna imperativo elevar nossas vozes, unir forças e tecer um futuro onde cada criança possa florescer num ambiente de amor, respeito e proteção.
Ao contrário do senso comum, os maus tratos na infância, não assumem apenas a forma de violência física, e não deixam apenas nódoas negras, ainda que estas assumam relevante preocupação. Desde a negligência, o mau trato físico e psicológico, até à exploração sexual, cada uma destas formas de violência deixa cicatrizes profundas, muitas vezes incuráveis, e que comprometem seriamente o desenvolvimento das crianças e jovens, roubando-lhes a infância, a alegria, a inocência e a esperança. Crianças que sofrem maus tratos podem apresentar dificuldades de aprendizagem, problemas de saúde mental, comportamentos de risco e, em casos extremos, até mesmo ideação suicida.
A crueldade dos maus-tratos manifesta-se, em grande parte, no silêncio ensurdecedor que os encobre, sendo que, com a sua fragilidade e dependência, frequentemente se veem desprovidas de voz para denunciar, aprisionadas por medo, vergonha e manipulação num ciclo vicioso de dor e isolamento.
Quebrar o ciclo da violência exige coragem para tomar consciência dos sinais de alerta, um olhar atento, uma escuta sensível e a disposição para agir de forma a fazer toda a diferença na vida de uma criança em sofrimento. A mudança começa com a conscientização e o compromisso individual e coletivo de proteger a infância.
Em 1989, nos Estados Unidos, Bonnie Finney amarrou uma fita azul na antena do seu carro em memória do neto, que tinha sido vítima de maus tratos. O azul, cor que escolheu para representar os hematomas que a criança tinha no corpo, tornou-se um símbolo de alerta e uma chamada de atenção para a prevenção dos maus tratos na infância. Desde então, a campanha do Laço Azul tem-se propagado pelo mundo, unindo pessoas e organizações num movimento global de prevenção e conscientização sobre esta problemática ainda tão premente. Ao usarmos o laço azul, expressamos o compromisso que assumimos de proteger as crianças, denunciar os casos de violência e construir uma sociedade mais justa e solidária.
A prevenção dos maus tratos na infância é um desafio complexo que exige a colaboração e o envolvimento de toda a comunidade. Famílias, escolas, comunidades, governos e organizações não governamentais devem trabalhar em conjunto para criar estratégias de proteção que envolvam e amparem as crianças, protegendo-as deste flagelo e de qualquer tipo de violência a que possam estar expostas. Investir em programas de apoio às famílias, promover a educação parental, garantir o acesso à justiça, fortalecer os serviços de saúde e sociais, são medidas essenciais para prevenir a violência e proteger os direitos das crianças, que nunca devem ser descuidadas.
É possível promover um futuro onde todas as crianças possam crescer num ambiente seguro, confortável e estimulante, livre de violência e exploração, porém, para o alcançarmos, é necessário que todos nos envolvamos, denunciando casos de violência e apoiando iniciativas de prevenção, ao invés de continuar a assobiar para o lado.
Que o azul do laço nos inspire a construir um mundo onde a infância seja sempre sinônimo de alegria, esperança e um futuro brilhante para todas, afinal, o futuro é delas.
Milene Geadas, in Voz de Lamego, ano 95/24, n.º 4801, de 30 de abril 2025



