O Dia Mundial das Comunicações Sociais foi instituído no concílio Vaticano II, no Decreto “Inter Mirifica”, para sublinhar a importância dos meios de comunicação na propagação da fé e comemora-se com a Solenidade da Ascensão de Jesus ao Céu, este ano a 17 de maio. Ao ascender para o Pai, Jesus continua presente, garantindo-nos que está connosco até ao fim dos tempos. Cabe-nos, agora, como discípulos missionários, dá-l’O a conhecer ao mundo inteiro, através das palavras, das obras, através da nossa vida. Os meios de comunicação social, bem usados, são um precioso auxílio para aproximar pessoas e povos, para promover a justiça e paz, para facilitar o intercâmbio de culturas e o respeito pela identidade de famílias, grupos e nações. Deus comunica-Se em plenitude por Jesus, na Sua vida por inteiro, feita doação para que, n’Ele tenhamos vida abundante.
A mensagem do Papa é divulgada, cada ano, na memória litúrgica de são Francisco de Sales, padroeiro dos escritores e jornalistas. Esta é a primeira mensagem do Papa Leão XIV e o título já nos remete para o essencial: preservar vozes e rostos. Numa das suas mensagens para este dia, o Papa Francisco falava na necessidade dos meios de comunicação social, os jornalistas, conhecerem histórias verdadeiras, indo aos locais, para preservar a memória, e contarem a vida real, a vida concreta de pessoas, com os seus sofrimentos e as suas superações, pessoas que ajudaram e ajudam a tornar o mundo melhor.
Alguns fragmentos da mensagem – disponível nas páginas do Vaticano (www.vatican.va/) e na página da diocese (www.diocese-lamego.pt) – permitir-nos-ão perceber a lógica com que o papa Leão se dirige ao mundo dos mass media, desafiando-nos a preservar a nossa identidade, o nosso pensamento e a não nos deixarmos iludir pela Inteligência Artificial (IA) ou a governar pelos algoritmos.
“O rosto e a voz são traços únicos e distintivos de cada pessoa; manifestam a sua identidade irrepetível e são elemento constitutivo de cada encontro. Os antigos sabiam-no bem. Para definir o ser humano, os gregos usavam a palavra “rosto” (prósopon), que etimologicamente indica o que está diante do olhar, o lugar da presença e da relação. Por sua vez, o termo latino persona (de per-sonare) inclui o som: não um som qualquer, mas a voz inconfundível de alguém”.
Com efeito, prossegue o santo Padre, “rosto e voz são sagrados. Foram-nos dados por Deus, que nos criou à sua imagem e semelhança, chamando-nos à vida com a Palavra que Ele mesmo nos dirigiu. Uma Palavra que, ao longo dos séculos, ressoou na voz dos profetas e depois, na plenitude dos tempos, fez-se carne. Esta Palavra – esta comunicação que Deus faz de si mesmo – pudemos ainda escutá-la e vê-la diretamente (cf. 1 Jo 1, 1-3), porque se deixou conhecer na voz e no Rosto de Jesus, Filho de Deus”. Na verdade, “desde o momento da criação, Deus quis o ser humano como seu interlocutor e, como disse São Gregório de Nissa, imprimiu no seu rosto um reflexo do amor divino, para que pudesse viver plenamente a sua humanidade através do amor. Preservar os rostos e as vozes humanas significa, portanto, preservar este selo, este reflexo indelével do amor de Deus. Não somos uma espécie feita de algoritmos bioquímicos predefinidos antecipadamente: cada pessoa possui uma vocação insubstituível e irrepetível, que emerge da vida e se manifesta precisamente na comunicação com os outros”.
Uma das interpelações do Papa é que não renunciemos ao nosso pensamento. “Nos últimos anos, os sistemas de inteligência artificial estão a assumir cada vez mais o controlo da produção de textos, música e vídeos. Grande parte da indústria criativa humana corre o risco de ser destruída e substituída pela etiqueta “Powered by AI”, transformando as pessoas em meros consumidores passivos de pensamentos não pensados, de produtos anónimos, sem autoria nem amor. Ao mesmo tempo, as obras-primas do génio humano no âmbito da música, da arte e da literatura vão sendo reduzidas a um mero campo de treino para as máquinas”.
A concluir: “preservar os rostos e as vozes significa, em última análise, preservarmo-nos a nós próprios… A questão que realmente nos interessa não é o que a máquina consegue ou conseguirá fazer, mas o que nós podemos e poderíamos fazer, crescendo em humanidade e conhecimento, com uma inteligente utilização de ferramentas tão poderosas ao nosso serviço”.
Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/10, n.º 4835, de 28 de janeiro de 2026



