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Preciosíssimo Sangue de Cristo

O mês de julho ocupa um lugar singular na tradição espiritual da Igreja. É o mês dedicado ao Preciosíssimo Sangue de Cristo, uma devoção que, longe de se deter apenas na memória da Paixão, nos conduz ao centro do mistério da nossa redenção. Contemplar o Sangue de Cristo é contemplar o amor de Deus tornado visível, um amor que não conheceu limites e que se entregou “até ao fim” (Jo 13,1).

Falar do Sangue de Cristo é falar do amor levado até ao extremo. Não se trata de uma devoção centrada no sofrimento, mas da expressão mais concreta da entrega de Jesus pela humanidade. Cada gota fala de misericórdia, de perdão e de reconciliação. Não é um sangue que clama por vingança, como o de Abel, mas um sangue que, como recorda a Carta aos Hebreus, “fala melhor do que o de Abel” (Heb 12,24), porque anuncia o perdão, restaura a comunhão e abre definitivamente as portas da esperança.

Numa sociedade habituada a medir tudo pela utilidade e pelo sucesso imediato, esta devoção lembra-nos que o verdadeiro valor da pessoa não depende daquilo que produz, mas do preço do amor com que foi resgatada. Como escreve São Pedro, fomos resgatados “não por bens perecíveis, como a prata ou o ouro, mas pelo precioso sangue de Cristo” (cf. 1 Pedro 1,18-19).

O Papa Bento XVI, na homilia da Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, em 2009, recordava que o sangue, na linguagem bíblica, significa a vida. Assim, quando Cristo nos dá o Seu Sangue na Eucaristia, oferece-nos a sua própria vida, a vida do Filho de Deus, capaz de transformar a nossa existência e de fazer de nós participantes da comunhão divina. Noutra ocasião, ao meditar sobre a Carta aos Hebreus, sublinhou que o sangue de Cristo purifica a consciência humana e inaugura uma nova aliança fundada não em sacrifícios repetidos, mas na oferta perfeita e definitiva de Cristo.

Contemplar o Preciosíssimo Sangue é deixar-se transformar por este amor. É aprender a olhar o próximo com misericórdia, a reconciliar-se quando surgem divisões, a perdoar quando seria mais fácil guardar ressentimentos. O sangue, sinal de vida, torna-se também sinal de comunhão. Onde Cristo derramou o seu sangue, nasceram a esperança e a possibilidade de um novo começo, hoje e sempre.

Talvez seja este o desafio para o mês de julho. Enquanto muitos aproveitam as férias para recuperar forças, somos convidados a renovar também a vida espiritual.

O Preciosíssimo Sangue de Cristo recorda-nos que ninguém está perdido aos olhos de Deus. Há sempre uma porta aberta para o perdão, uma oportunidade para recomeçar, um caminho de reconciliação.


Raquel Assis, in Voz de Lamego, ano 96/34, n.º 4859, de 22 de julho de 2026

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