Por certo! Há diversas formas de crucificar ou de matar as pessoas e Jesus continua sujeito a ser morto por judeus, por cristãos ou por muçulmanos, desde logo quando se mata em nome de Deus, sabendo, como Ele o deixou claro, que o que fizermos ao mais pequeno dos irmãos é a Ele que o fazemos. Sendo assim, quando prejudicamos, quando fazemos sofrer ou quando matamos, espiritual ou fisicamente, é também a Jesus que estamos a sobrecarregar, aniquilando-O nos nossos irmãos.
Há uma série, de distribuição gratuita, Os Escolhidos (The Chosen), em que a vida de Jesus volta a ser retratada, seguindo de perto os Evangelhos, com a inserção de momentos ou de histórias que ligam os acontecimentos ou desenvolvem a trama para que os diversos episódios tenham um efeito compaginável com a dinâmica televisiva-cinematográfica. Mesmo com as inserções de cenas que não têm correspondência nos Evangelhos nem na tradição oral ou nos textos apócrifos, ainda assim é uma excelente série neotestamentária que nos faz entrar nas narrativas da vida de Jesus, na Sua pregação, nos prodígios realizados, nos momentos de oração, de convívio descontraído ou quando as horas se adensam e somos arrastamos para momentos de grande intensidade, prisão, julgamento, morte… Recomendo a série tal como outras pessoas me incentivaram a ver.
A forma como se desenrola a vida Jesus, nesta série, faz com que pareça uma personagem muito humana, na normalidade da vida judaica daquele tempo, naquele contexto social, cultural e religioso. É caso para dizer que a própria escolha dos atores para representarem Jesus, as mulheres que O acompanham, os Seus discípulos, é uma escolha muito feliz. Se começássemos a ver a série, sem diálogos, nem gestos que O denunciassem, não perceberíamos quem é Jesus, quem é a Sua Mãe ou quem é Simão Pedro. No meio dos discípulos, talvez, seguindo o que nos tem sido apresentado em séries e filmes sobre Jesus, escolheríamos alguém que não o próprio Jesus. Ele confunde-Se facilmente com os demais, está no meio de nós e não nos apercebemos que está ou quem é Ele! A conclusão é minha, mas é o que a série suscita em nós.
Quando assistia a um dos episódios, o da pesca milagrosa, formou-se em mim o rascunho desta reflexão. Hoje Jesus voltava a ser condenado, crucificado, morto! Facilmente. A pesca é intensiva! Para algum partido ou corrente ecologista-fundamentalista é impensável que Jesus incentive a pesca ou até que coma peixe, pois tem que matar muitos peixes, sufocando-os! Pensemos, mais à frente, Jesus entra na cidade santa sentado num burrito! Coitado do burro, pois não é culpado do que quer que seja para carregar o peso de um homem adulto, num trajeto em que está sujeito a tombar e a aleijar-se bem. Logo depois, Jesus participará, como já antes o tinha feito, na Ceia Pascal e, como todo o bom judeu, terá que comer o Cordeiro que foi sacrificado para eles comerem! A proteção dos animais não perderia a oportunidade de contestar abertamente Jesus e os seus discípulos por festejarem à custa de alguns cordeiros. Acho eu! Claro que não é a mesma coisa “matar para comer” ou matar por prazer e/ou desporto! Mas talvez cheguemos a esse tempo em que a proteção animal nos crucifique e enforque!
Agora mais a sério… Jesus facilmente voltaria a ser perseguido, acusado, difamado, voltaria de novo a ser condenado, excluído, silenciado, como o têm sido muitos dos seus seguidores. A defesa da verdade, a proclamação da justiça, a prossecução da paz, a denúncia da prepotência, dos interesses instalados, da violência gratuita, do racismo, da discriminação social, política ou religiosa, o compromisso solidário com os mais pobres, o amor a todos, também ou especialmente aos que hoje são banidos do acesso aos bens essenciais, a convivência com pessoas de índole duvidosa, levariam muitos a considerar Jesus como louco ou como um homem perigoso.
Fica a interpelação de Jesus, quando confrontados com as adversidades por sermos cristãos: quem perseverar até ao fim será salvo.
Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/35, n.º 4860, de 29 de julho de 2026



