A sociedade está demasiado polarizada! É uma afirmação veiculada reiteradamente. Branco ou preto. Luz ou trevas. Esquerda ou direita. Conservadora ou progressista. Antiquada ou moderna. Os extremos tocam-se e apesar de tudo excluem-se mutuamente. Há poucos dias tivemos eleições legislativas e vão sendo visíveis os ódios, tão vincados nos discursos. O desejo expresso é de acabar com aquele partido ou aqueloutro. Situando-se à esquerda, há que acabar com a direita; situando-se à direita, há que acabar com a esquerda. Bem vistas as coisas, não é possível encaixotar todos no mesmo saco e daí a diversidade dos partidos e a indiferença de muitos ou a opção pelo descompromisso com a política e a vida pública.
A política, como lembrava o Papa Francisco, é e deve ser uma arte sublime de serviço à humanidade, na prossecução do bem comum, na atenção aos mais frágeis.
O “todos, todos, todos” do Papa Francisco não tem concretização na sociedade do nosso tempo, nem na política nem na economia. Existe uma multidão de excluídos, sem vez nem voz. Os novos movimentos culturais, sociológicos, políticos, ideológicos, não têm sabido incluir e agregar, ao invés, muitas vezes, são factores de novas exclusões, levantando novos muros. Agrupam descontentes, indiferentes, ou a precisarem de dar sentido e orientação à vida, porém, continuam a não agregar nem a contar com os pobres. Os extremismos estão a ficar na moda; revestem-se de um discurso de ódio, de anarquismo, de violência contra quem pensa e diz diferente. É tão difícil conjugar as diferenças com a unidade, a diversidade com a fraternidade, a identidade com a alteridade, o preconceito com a abertura ao outro. Mas é possível, como nos mostram muitas pessoas, movimentos e associações. Podemos olhar para o mundo com um olhar pessimista, de desistência e desilusão, ou com um olhar de esperança e de compromisso pessoal e comunitário.
O propósito teórico do comunismo era benevolente, na perspetiva de englobar todos e em que tudo fosse de todos. A concretização prática criou novas elites e oligarquias. A luta de classes resultou na substituição de uns pelos outros, destruindo os que estavam num patamar superior para lá colocar os que estavam num estrato inferior.
O caminho passa pela partilha solidária e pela corresponsabilidade, criar espaço e oportunidades para todos. Não basta falar dos pobres, é urgente contar com eles e com eles gizar projetos de integração, compromisso e transformação do ambiente socioeconómico em que vivem.
Na Igreja, o mesmo esforço em conjugar polos! A vida é preta e branca, mas também cinzenta, amarela, vermelha e azul, com muitas cores, matizes e tonalidades. Esta é a riqueza da Igreja. Muitos movimentos, muitos carismas, mas o mesmo batismo, o mesmo Espírito de Deus que atua em todos, a mesma fé em Jesus Cristo, Deus connosco. Houve épocas em que nos impusemos pela força, pela violência, pela chantagem, pela ameaça, pela prepotência, pelo controlo, pelo poder, pelas influências políticas e económicas. Há quem tenha saudades do tempo em que o inferno era ilustrado de tal forma que metia medo de morte, mantendo encurralado todo o rebanho. Jesus veio para nos libertar do medo e de tantos demónicos que continuam a infernizar vidas. A fé é para atrair pela alegria, pela festa, pela esperança, pela bondade e pelo amor!
Jesus reza ao Pai para que todos sejam Um, como Ele e o Pai são Um. Esta unidade só é possível em dinâmica de amor. O essencial é escutar. O essencial é amar. Quem ama escuta, respeita, liga-se, mantém-se fiel, dá-se, gasta-se. Quem ama ao jeito de Jesus, faz pontes de diálogo, de serviço e de comunhão.
Recuperamos palavras de Leão XIV: “Somos chamados a oferecer a todos o amor de Deus, para que se realize aquela unidade que não anula as diferenças, mas valoriza a história pessoal de cada um e a cultura social e religiosa de cada povo”.
Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 95/28, n.º 4805, de 28 de maio 2025



