No ano de 2005, há vinte anos, o então Cardeal Joseph Ratzinger, algumas horas antes de ser eleito Papa, alertava para o perigo do relativismo. “A pequena barca do pensamento de muitos cristãos não raramente foi agitada por estas ondas, de um extremo ao outro: do marxismo ao liberalismo, até ao libertinismo; do coletivismo ao individualismo radical; do ateísmo a um vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo, e assim por diante”. E prosseguia, dizendo: “Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, frequentemente é etiquetado como fundamentalismo. Enquanto o relativismo, isto é, o deixar-se levar ‘aqui e acolá por qualquer vento de doutrina’, aparece como a única atitude que não reconhece nada como definitivo e que deixa como última medida somente o próprio eu e as suas vontades”. Como Papa, confiava-nos o seu testamento espiritual: “Permanecei firmes na fé! Não vos deixeis confundir!… Vi e vejo que do emaranhado de hipóteses surgiu e sobressai novamente a sensatez da fé. Jesus Cristo é verdadeiramente o caminho, a verdade e a vida — e a Igreja, com todas as suas insuficiências, é verdadeiramente o seu corpo”.
O relativismo conclui que todos as regras, comportamentos, convicções, direitos são igualmente defensáveis. Não há critério à priori. O que tu defendes, o que eu defendo, o que o outro defende tem o mesmo direito de cidadania. Sem valores que sejam fundamento, alicerce, estrutura de uma sociedade, tudo ficará a depender, novamente, dos mais fortes, dos que tiverem mais dinheiro, mais poder e mais influência. O critério será a vontade de cada um e prevalecerá a vontade de quem tiver mais força.
O outro extremo, mas talvez não lhe seja estranho, é o querer que todos pensem de forma igual e se moldem pelo pensamento único. Eu tenho razão e, portanto, os demais não a têm, e, em consequência, hão de aprender, hão de submeter-se à minha vontade. Isto vale na política, vale na religião, vale em muitos âmbitos da vida social, cultural, económica. No passado, a Igreja preocupou-se muito em impor a salvação, sabendo nós que esta é uma proposta a ser acolhida. Diria o Papa Bento XVI que o cristianismo se expande por atração, não por proselitismo. O justo equilíbrio nem sempre é fácil. Acolher o pluralismo, as diferenças e os diferentes contributos, sem atropelos nem submissões escravizantes, é uma tarefa constante. Saber respeitar o outro e a sua identidade, as suas convicções, procurando preservar o que nos liga, o que nos irmana e humaniza é uma arte e uma missão para toda a vida, procurando uma sociedade que seja família, que viva a harmonia. A beleza da orquestra está na harmonização de diferentes instrumentos, tons e sons. A harmonia liga as diferenças. Em Igreja ao fundamento é Jesus Cristo, que faz com que pluralidade se converta em comunhão.
No Jubileu das Famílias, Crianças, Avós e Idosos, o Papa Leão XIV, na sua homilia, e partindo do Evangelho de são João (Jo 17, 20-26), faz-nos regressar ao fundamento da nossa fé, da Igreja, da fraternidade: “Cristo pede, com efeito, que todos sejamos ‘um só’ (v. 21)… O Senhor não quer que nos juntemos numa massa indistinta, como um bloco sem nome, apenas com o fim de estarmos unidos, mas deseja que sejamos um: ‘como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti; para que assim eles estejam em Nós’ (v. 21). A unidade pela qual Jesus reza é, portanto, uma comunhão fundada no mesmo amor com que Deus ama, do qual provêm a vida e a salvação… na sua misericórdia, Deus sempre quis atrair todos os homens para si, e é a sua vida, entregue por nós em Cristo, que nos faz um, que nos une uns aos outros… Caríssimos, se nos amarmos assim, sobre o fundamento de Cristo, que é ‘o Alfa e o Ômega’, ‘o Princípio e o Fim’ (cf. Ap 22, 13), seremos sinal de paz para todos na sociedade e no mundo”.
A única linguagem que verdadeiramente gera comunhão é a linguagem do amor, traduzido no serviço e cuidado aos outros.
Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 95/29, n.º 4806, de 4 de junho 2025



