HomeCrónicasPerfeição de Deus!
CrónicasReligião

Perfeição de Deus!

Há uma tentação que nos é congénita: imaginar que a felicidade estaria ao nosso alcance se estivéssemos rodeados pelas pessoas “certas”. Julgamos que o problema está na família que temos, na comunidade em que vivemos, no grupo onde colaboramos ou até na própria Igreja. Sonhamos, tantas vezes, com uma realidade ideal, mas que, não passa de uma realidade irreal.

Não há pessoas perfeitas. Não há famílias perfeitas. Não há grupos perfeitos. Há pessoas concretas, marcadas pela sua história, pelas alegrias e pelas feridas, pelos sucessos e pelos fracassos. Cada um de nós é fruto dos dons recebidos de Deus, da educação que teve, das escolhas que fez e das circunstâncias que viveu. Não somos melhores nem piores do que os outros, somos diferentes!

É precisamente nesta diferença que Deus decide encontrar-nos. Deus entra na imperfeição da nossa existência e faz dela um lugar de graça em cada pormenor.

Bento XVI recordava frequentemente que a comunhão cristã não nasce da afinidade de temperamentos, mas da ação de Deus. Na homilia de Pentecostes de 23 de maio de 2010 “Isto não significa que a unidade criada pelo Espírito Santo seja uma espécie de igualitarismo… No Pentecostes, os Apóstolos falam línguas diferentes… A unidade do Espírito manifesta-se na pluralidade da compreensão. A Igreja é, por sua natureza, una e múltipla.”

 Esta visão ajuda-nos a compreender que a riqueza da Igreja, das famílias e das comunidades não está em todos pensarem ou agirem da mesma forma, mas em aprenderem a amar-se nas suas diferenças.

Talvez devêssemos mudar a pergunta que tantas vezes fazemos. Em vez de dizer: “Porque é que tenho de conviver com esta pessoa?”, seria mais cristão perguntar: “O que quer Deus ensinar-me através dela?”

A resposta nem sempre será confortável. Há pessoas que despertam a nossa paciência, outras desafiam os nossos preconceitos, outras ainda obrigam-nos a crescer na humildade. Mas nenhuma delas chega por acaso, mas sim, com um propósito muito concreto. A fé ensina-nos que Deus escreve direito em caminho tortuosos.

O próprio Bento XVI dizia, na encíclica Deus Caritas Est, que “o amor cresce através do amor”. Amar não é apenas um sentimento espontâneo; é uma decisão que amadurece no exercício quotidiano da compreensão, da renúncia, do perdão e da fidelidade. É precisamente no contacto com as limitações dos outros que o nosso amor deixa de ser idealizado para se tornar verdadeiramente cristão.

Talvez a pessoa que mais nos custa compreender seja, afinal, aquela que Deus escolheu para nos ensinar a amar sem condições. Talvez a família que nos parece mais difícil seja o lugar onde somos chamados à santidade. Talvez a comunidade que tantas vezes criticamos seja o espaço onde Deus nos convida a servir com mais humildade.

No fim de contas, a questão nunca será encontrar pessoas perfeitas. A verdadeira questão é saber se estamos dispostos a amar as pessoas reais que Deus colocou no nosso caminho. Porque é com elas que aprendemos, ensinamos, perdoamos e crescemos. E é precisamente assim, na imperfeição da vida quotidiana, que Deus continua a formar santos.


Raquel Assis, in Voz de Lamego, ano 96/35, n.º 4860, de 29 de julho de 2026

Deixe um comentário