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Pedro, Pedro, tu amas-me? Amas-me mais?

Na terceira vez que Jesus Ressuscitado Se manifesta aos Seus discípulos (cf. Jo 21), dá-se a pesca milagrosa e o convite à refeição. Ocasião para Jesus confirmar Pedro como chefe da comunidade dos discípulos.

Depois de alimentados, Jesus questiona Pedro: “Simão, filho de João, amas-me mais do que estes?”. A resposta é categórica: “Sim, Senhor, tu sabes que Te amo”. Sobre a confiança na amizade, no amor, Jesus responsabiliza-o: “Apascenta os meus cordeiros”. Parece que tudo se enquadra na perfeição, mas Jesus pergunta novamente: “Pedro, filho de João, tu amas-me?”. Pedro volta a ser categórico na resposta. Poderia parecer que era suficiente. Mas Jesus pergunta uma terceira vez: “Amas-me?”. Como reagiríamos diante desta insistência? Por certo nos entristeceríamos, tal como Pedro. Perguntarem-nos a mesma coisa duas ou três vezes sobre o mesmo assunto permite concluir que a nossa resposta não é fiável, não revela firmeza, é uma resposta duvidosa. A tradição viu neste tríplice questionamento e tríplice profissão de fé o contraponto à tríplice negação de Pedro.

Obviamente que Jesus não precisa de testar a convicção de Simão Pedro. Jesus confia nele, sabe que é genuíno, espontâneo, mas também sabe que na sua impulsividade, tendo o coração ao pé da boca, responde sem pensar muito no que diz. É genuíno, mas precisa de tomar consciência daquilo que afirma e das suas consequências. Não basta dizer “Senhor, Senhor”, é imperioso acolher e tornar concreto a vontade Deus. Não basta assentir com a cabeça, com os lábios, com a sonoridade, é fundamental que o coração se expresse e que a vida traduza o que se afirma. Não é Jesus que precisa de confirmar as palavras de Pedro. É Pedro que precisa de levar a sério o que promete, não se baseando tanto em si – presunção e água benta cada um toma a que quer – mas assumir a sua fragilidade, ou a realidade da sua vida, para deixar que nele se manifeste a graça de Deus. Simão Pedro tem que saber o que significa e implica a vocação (chamamento), o seguimento e a missão. Não é de ânimo leve que se responde ao Mestre dos Mestres, eventualmente para ser agradável e parecer prestável. Noutros momentos, a prontidão de Pedro não se refletiu na prática. “Ah, Senhor, ainda que todos Te abandonem… ah, se necessário, darei a vida por Ti”. Agora como antes, Jesus escuta a voz mas também sabe a firmeza ou a falta dela: “Darás a vida por Mim? Antes que o galo cante, negar-Me-ás três vezes”. Quando Pedro firma o seu olhar no olhar de Jesus pode caminhar seguro sobre as águas. Quando Pedro se fixa em si mesmo e nas suas capacidades acaba por ir ao fundo. Lá está Jesus para lhe estender as mãos e o devolver à superfície. Jesus não mais estará fisicamente, é essencial que Pedro aprenda a ser as mãos de Jesus para que outros possam caminhar seguros.

Finalmente, Pedro percebe. “Senhor, Tu sabes tudo! Bem sabes que te amo”. São pequenas nuances, mas percetíveis. Quando responde a primeira e a segunda vez, Pedro dá por garantido que Jesus o conhece, não é necessário provar, não é necessário gastar tempo a dizer o quanto é confiável. No final, Simão Pedro já não se centra nas suas certezas, mas confia-se e entrega-se à sabedoria e benevolência de Jesus. Tu sabes tudo! Sabes do meu propósito, mas também dos meus deslizes! Sabes da minha prontidão, mas também da minha hesitação! Sabes da minha vontade, mas também dos meus medos! Tu sabes que estou disponível a seguir-Te, mas também sabes que preciso da Tua presença, do Teu olhar, da Tua proteção.

Pela terceira vez, concluindo, Jesus confirma Pedro como líder: «Apascenta as minhas ovelhas… Segue-Me”. Também a nós Jesus nos chama ao seguimento e também a nós Jesus nos envia a anunciar o Evangelho. A mesma condição, que o nosso primeiro amor seja Ele, pois só assim agiremos, não porque sejamos mais sábios e melhores do que os outros – hoje não faltam sabichões e prepotentes –, mas porque acolhemos coração para Deus no nosso, evitando endeusar, idolatrar, instrumentalizar ou escravizar os outros.


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/27, n.º 4852, de 27 de maio de 2026

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