Foram toneladas de horas onde um sem fim de comentadores ensaiaram os mais diversos aplausos à figura do Papa Francisco. Nada de inesperado. Neste mundo volátil e acelerado em que vivemos é tão curioso que, salvando honrosas exceções, os mesmos comentadores da guerra da Ucrânia, da inflação, do escândalo Spinumviva e do sistema tático 3x4x3 do Porto, logo se transformam em profundos vaticanistas dos sete costados. Nada de novo. Tenho muita inveja dessa elasticidade do comentário. Por isso mesmo, sobre a despedida do Papa Francisco, apenas gostaria de deixar duas imagens em absoluto contraste: 1) a celebração, completamente isolada, da Páscoa na Praça de São Pedro, debaixo de um tempo taciturno e negro, carregado de nuvens, durante a pandemia de covid-19; 2) a alegria do Papa, nas Jornadas Mundiais da Juventude, em Lisboa, a dizer “todos, todos, todos”, uma expressão que se tornou tão popular que parece a parte de uma música qualquer.
Na primeira, a sombra da noite. Na segunda, a alegria do convívio. É isso que levo deste Papa. A imensidão com que se humanizou a cada momento de exposição pública. É impossível um cristão comum, até mesmo um ateu completamente desligado do mundo, não deixar de sorrir ao ver uma das últimas “entrevistas” que o Papa deu, depois de sair da clínica, sentado à frente, no carro, enquanto uma jornalista italiana lhe perguntava: “como é que se sente hoje, Sua Santidade?”. E ele: “sentado”. A piada que todos nós já fizemos, com mais ou menos dentes na boca, com mais ou menos dinheiro na carteira. A humanização plena.
Ao celebrar a Páscoa sozinho, o exemplo estava ali. Aquelas imagens valem por muitas homilias. Acreditar, nunca desistir, caminhar. O vento sopra feio e grosso, a cabeça não parece ajudar. Mas há sempre um caminho, mesmo que a solução nem sequer seja possível. Ao convidar “todos, todos, todos” para a Igreja, Francisco não estava propriamente a sugerir uma noitada onde toda a gente tem mesmo de vir. Esse pensamento de inclusão total não é sequer novo no pensamento do Papa – vejam como até eu próprio consigo ser um vaticanista. Essa expressão, tal como cantou Vítor Espadinha, “repetida até ao expoente da loucura”, só se torna bela porque foi dita com a mais profunda alegria. Venham. Ignoremos os fiscais da fé. Todos podem entrar.
Francisco.
Fábio Ribeiro, in Voz de Lamego, ano 95/24, n.º 4801, de 30 de abril 2025



