Obviamente que Judas poderia ser reabilitado como um dos discípulos mais fiáveis e mais próximos de Jesus, no qual todos confiavam, ao ponto de ser o responsável pelas economias, que permitiam preparar refeições e distribuir pelos mais pobres. Como sublinha Augusto Cury, nos recursos humanos (RH) de uma grande empresa do nosso tempo talvez só Judas fosse contratado. Depois de ter traído Jesus, recaem sobre ele todos os aspetos negativos relacionados com o grupo dos Doze. Mais de perto daria para ver e perceber que todos eles são imaturos diante das adversidades e todos eles precisam de ser “testados” para se tornarem discípulos e não mestres, para serem seguidores de Jesus e seus continuadores e não substitutos. O medo, a fuga, as hesitações diante das ameaças, sobretudo na semana final da vida terrena de Jesus, as diferenças quanto às opções a seguir são comuns a todos os discípulos, todos se acobardam, todos fogem e se mantêm à distância, todos se fecham depois da morte de Jesus com medo que lhes suceda o mesmo! Em diversas ocasiões Jesus os repreende, ora a Pedro ora a todos: quem quiser ser o primeiro seja o servo de todos! Mas Judas coloca-se a jeito para ser o bode expiatório das contradições de todos os discípulos, depois da traição e pelo facto de não ter conseguido perdoar-se pela maldade que fez a Jesus, como Pedro que se arrependeu amargamente. Judas, infelizmente deixou os Doze cedo de mais, antes da Páscoa e da manifestação gloriosa de Jesus. Perdeu-se definitivamente. Essa é a grande diferença em relação a Pedro.
Mudemos o foco.
Quando nos referimos a Judas logo o fazemos como se se tratasse de Judas Iscariotes, mas é outro Judas e outra a mensagem que quero refletir e partilhar convosco. Do grupo dos Doze faz parte Judas Tadeu, que ora aparece nomeado apenas como Tadeu (Mt 10, 1-4; Mc 3, 13-19, ou Judas, filho de Tiago (Lc 6. 12-16, Atos 1, 13). Poderia ser, como disse, uma visão diferente do Iscariotes, também poderia ser estoutro Apóstolo, Tadeu, mas vamos fixar-nos num terceiro Judas e na carta que lhe é atribuída. Chegou a ser atribuída a Judas Tadeu. Mas o autor apresenta-se logo no início: “Judas, servo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago, aos eleitos, amados em Deus Pai e guardados por Jesus Cristo: a vós sejam concedidas em abundância a misericórdia, a paz e o amor”.
Os irmãos e as irmãs de Jesus são citados uma ou outra vez. Maria e alguns dos Seus parentes vão ter com Jesus para o levarem para casa, pois havia quem sugerisse que Ele estaria tresloucado. A resposta de Jesus é concludente, alargando a perspetiva da família: “Todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está no Céu, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12, 49). Em Nazaré, alguns questionam as suas origens: “Não é Ele o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? Suas irmãs não estão entre nós?”
A autoria do Carta será, então, deste parente próximo de Jesus, irmão de Tiago, irmão do Senhor. Também a Carta de são Tiago, tendo sido atribuída ao apóstolo Tiago, filho de Alfeu, mas hoje comummente se atribui a autoria a Tiago, irmão do Senhor. De um e outro, se refere que acreditaram em Jesus depois da ressurreição. Tiago era tido em grande consideração ao ponto de se ter tornado o líder da Igreja de Jerusalém. Nesta como em outras cartas, também se coloca a hipótese de terem sido escritas por comunidades ou discípulos próximos daqueles a quem se atribui. Nada disto anula a inspiração, a canonicidade, a autenticidade das mesmas.
E depois disto tudo, sugiro a leitura desta carta. É mais pequena do que este editorial e diz muito mais. Vale a pena. Para a semana há mais!!!
Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/28, n.º 4853, de 3 de junho de 2026



