HomeDestaquesOs sonhos e a esperança
DestaquesEditorial

Os sonhos e a esperança

Somos peregrinos da esperança, daquela esperança que não engana (cf. Rom 5, 5), a esperança que se funda em Deus, apresentado, encarnado e revelado, na perfeição, em Jesus Cristo. Caminhamos para a Páscoa, celebração maior da nossa fé, ressurreição e vida plena que Jesus mostra e antecipa. A Quaresma fixa-nos no caminho. Somos peregrinos. Caminheiros. Caminhantes. Em conversão e aprendizagem. Somos caminho que se faz caminhando. A conversão não é um estado que se alcança, é um caminho de aprendizagem e conversão, de mudança de vida, de identificação da nossa à vida e à postura de Jesus. A Quaresma é caminho, mas também celebração e vivência do mistério pascal, pois cada quaresma acontece porque Jesus ressuscitou e está vivo, tornando-se especialmente presente no sacramento da Eucaristia.

O Jubileu, que assinala os 2025 anos do nascimento de Jesus, faz-nos percorrer, igualmente, este caminho “quaresmal”, de conversão, de acolhimento da vida que Jesus nos traz e adequação à forma como Ele viveu. Nesta perspetiva, como a Quaresma, também o Jubileu é caminho e vivência da graça de Deus que se expressa nos sacramentos, na vida das comunidades, nas opção de serviço e cuidado aos mais desfavorecidos, acercando-nos da maneira de pensar, falar e viver de Jesus Cristo.

Papa Bento XVI, na carta Encíclica Spes Salvi, aponta o caminho da redenção que nos é “oferecida no sentido que nos foi dada a esperança, uma esperança fidedigna, graças à qual podemos enfrentar o nosso tempo presente: o presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for tão grande que justifique a canseira do caminho”. Fomos salvos na esperança (cf. Rom 8, 24).

Pelo caminho, vamos sonhando! Sonhamos um mundo melhor, alimentando os sonhos com o compromisso sincero e sério de concretizar o que humanamente nos é possível, confiando que Deus realizará em nós e através de nós o que aparentemente é irrealizável.

A esperança é virtude teologal, mas é potenciada pelos sonhos que alimentamos. Diariamente. Constantemente. Quando perdemos a capacidade de sonhar, morremos, desistimos de caminhar, de nos convertermos, de palmilharmos, com alegria e sacrifício, caminhos que nos fariam sorrir e agradecer. Sem sonhos, não há esperança, não há futuro, não há vida! Onde os sonhos não existem, cresce o desânimo e desencanto, crescem as trevas, a desolação, a desistência, a indiferença. Parecem apenas adjetivos, mas na verdade é a vida. Perante as contradições, contrariedades, perante os fracassos, perante um mundo virado do avesso, pode não sobrar mais tempo para os sonhos, para a esperança, para correr em direção a uma meta que compense toda a canseira e sofrimento. Bela a imagem da gravidez e do parto. O incómodo é suportável (ou mais facilmente tolerado) pela espera de uma vida nova que trará felicidade.

Com os pés assentes no chão, o Papa Francisco liga os sonhos à esperança e liga-os a Deus e aos outros. “Os sonhos grandes, para que sejam tais, precisam de uma fonte inexaurível de esperança, de um Infinito que sopra dentro e os dilata. Os sonhos grandes precisam de Deus para não se tornarem miragens nem delírio de omnipotência. Tu podes sonhar grande, mas sozinho é perigoso, porque podes cair no delírio de omnipotência. Mas com Deus não tenhas receio: vai em frente. Sonha grande”. E prossegue, dizendo: “Os grandes sonhos são aqueles que dão fecundidade, são capazes de semear paz, de semear fraternidade, de semear alegria, como hoje. Estes são sonhos grandes porque pensam em todos nós”.

O sonho projeta-nos para o futuro, faz-nos viver hoje, entrelaça-nos com a vida, com a história, com os outros. Um sonho que não envolva os outros, deixar-nos-ia entregues a nós próprios, sem rumo nem saída, num precipício sem fundo.

Alimentemos os sonhos com a esperança, a que nos vem de Deus, e ajamos de tal forma como se tudo dependesse do nosso empenho em transformar o mundo, tornando-o habitável para todos.


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 95/18, n.º 4795, de 19 de março de 2025

Deixe um comentário