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O olhar com que te vejo

Para nos vermos, fisicamente falando, usamos um espelho. O espelho nem sempre nos devolve a imagem que queremos e, muitas vezes, distorce a realidade. Veja-se a distorção da imagem em pessoas que sofrem de anorexia, surgindo-lhes no espelho uma imagem muito maior, muito mais forte. Não é fácil sermos juízes em causa própria, ainda que na comparação com os outros possamos identificar e/ou perceber características nossas. A altura ou o peso podemos medi-los com a balança ou a fita métrica! É-nos mais fácil “dizer” as características dos outros, as físicas, mas também dizer o que os outros são ou o que julgamos que são. Julgamo-los a partir de nós, do nosso olhar, dos nossos pensamentos e convicções, das nossas ideias.

E não penses já que estás imune a esse juízo de valor apressado. Nem tu, nem eu. Desde que acordamos até que regressamos ao sono, fazemos milhentos juízos, ajuizando se é melhor vestir esta ou aquela roupa, se colocamos este ou aquele perfume, se comemos pão com manteiga ou com atum, se saímos de casa quinze minutos antes ou se quatro minutos são suficientes. Depois ajuizamos o tempo, se se adapta à nossa disposição ou se esta é consequente com o clima do dia. Sobre o que as pessoas vestem, na roupa que trazem ou o olhar que os reveste! Nem todos os juízos têm uma valorização moral. Ajuizar também é decidir e discernir, fazer escolhas. Mais ponderadas ou mais apressadas, as nossas opções resultam dos juízos que fazemos. Mas entremos agora nos “juízos de valor”. O que valem para nós as pessoas e as suas ações? Colocamo-nos diante dos outros em atitude de generosidade, afabilidade e respeito ou em modo de desconfiança, dúvida, preconceito?

O que vemos nos outros, tantas e tantas vezes, não passa da projeção do que somos. O que vemos e o que dizemos diz mais de nós que dos outros. Augusto Cury sublinha odiamos nos outros o que odiamos em nós.

Em diversas ocasiões, Jesus nos alerta para os juízos apressados. «Não julgueis e não sereis julgados. Segundo o julgamento que fizerdes sereis julgados, segundo a medida com que medirdes vos será medido. Porque olhas o argueiro que o teu irmão tem na vista e não reparas na trave que está na tua? Como poderás dizer a teu irmão: ‘Deixa-me tirar o argueiro que tens na vista’, enquanto a trave está na tua? Hipócrita, tira primeiro a trave da tua vista e então verás bem para tirar o argueiro da vista do teu irmão». (Mt 7, 1-5).

O desafio é constante, como diria o poeta, olharmos para os outros com o olhar de Deus e então tudo é mais belo, mais puro, mais verdadeiro. O amor é cego, dirão alguns, mas o Principezinho sabia que só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos. Quando o outro te é indiferente, estranho, desconhecido ou inimigo, é fácil atirares pedras, dizeres mal, passares à frente e ignorar, é fácil considerar o outro um perigo para a sociedade ou um parasita.

O nosso compromisso, a nossa identidade e a nossa missão: olhar os outros com o olhar de Deus. Quando olhamos os outros a partir de nós, dos nossos preconceitos, medos, das nossas imperfeições, quando olhamos os outros a partir das nossas frustrações e desencantos, prevalecerá a maldade. Quase sempre encontramos o que procuramos. Queremos ver pessoas boas, procuramos as suas qualidades, sabendo que têm defeitos. Queremos ver pessoas más, sabendo que terão muitas qualidades, veremos apenas ruindade. “A lâmpada do teu corpo são os olhos. Se o teu olhar for límpido, todo o teu corpo ficará iluminado. Mas se o teu olhar for mau, todo o teu corpo andará nas trevas. E se a luz que há em ti são trevas, como serão grandes essas trevas!” (Mt 6, 22-23). Se há luz em nós, veremos o bem. Se houver apenas escuridão só veremos sombras que nos amedrontam.

Sejamos luz! Deixemos que a Luz que vem de Jesus possa incendiar de amor o nosso coração e o nosso olhar, para assim vermos bem e, vendo bem, acolhamos os outros, nunca como possíveis concorrentes ou inimigos, mas sempre como irmãos


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/31, n.º 4856, de 24 de junho de 2026

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