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O nosso Templo é Cristo Jesus

Entrando nos 250 anos (20 de novembro de 2026) da Dedicação da Catedral de Lamego, a Voz de Lamego acolhe “Factos e Figuras da Catedral”, proposta de reflexão do Cabido.

Dir-nos-á Jesus que a verdadeira adoração há de ser em espírito e verdade (cf. Jo 4, 23). Isso, contudo, não anula, nem secundariza a necessidade de espaços físicos onde nos encontremos como irmãos: “onde dois ou três estão reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles” (Mt 28, 20).

Com efeito, a dedicação de um altar e/ou de uma Igreja assinala e visualiza o fundamento de determinada comunidade crente, referencia um espaço especial dedicado a Deus, para uma maior proximidade, recolhimento e intimidade do homem com Deus, e para a comunidade se reunir e viver como Igreja.

Há um santuário em cada um de nós. Um santuário sagrado, dedicado, inviolável, para nos encontrarmos como pessoas, para encontrarmos a nossa origem e o nosso destino: Deus. Mas, além disso, como seres humanos, precisamos de espaço (e de tempos) para o encontro com os outros. Podemos acentuar a dimensão pessoal, porém, encontrar-me com Deus implica que me encontre com os outros. Se somos filhos, também somos irmãos. Unir-me a Deus implica unir-me a todos os Seus filhos, ou então a minha união com Ele não é nem séria, nem autêntica, nem transcendental, será apenas uma apropriação egoísta, temporária, possessiva e diabólica.

A Encarnação de Deus, com Jesus Cristo, faz disso expressão, sinal, sacramento: a eternidade, a divindade, o infinito, tornam-se acessíveis e percetíveis ao ser humano. Em Jesus, Deus assume a nossa condição humana, submetendo-se, por amor, às coordenadas espácio-temporais. Não sendo nem anjos, nem puros seres espirituais, situamo-nos perante os outros e perante a história, num determinado tempo e num espaço (físico) concreto. Assim, também, a nossa relação com Deus nos situa na história, onde Ele nos procura e nos encontra e onde Se deixa procurar e encontrar por nós.

Quando não houver espaços sagrados, nem tempos dedicados, deixamos de ser o que somos: pessoas, seres em relação com um mundo que vai além do nosso olhar. Há um mundo interior que nos protege dos outros, quando necessário, e que fundamenta a nossa a nossa identidade. Esta forja-se em dois movimentos: o que nos diferencia e o que nos aproxima dos outros. Somos o que somos no confronto com os outros. Se só existíssemos nós, não saberíamos o que somos, ou quem somos, ou o sentido da nossa estada neste mundo.

O que nos distingue dos outros seres vivos é o nosso mundo interior, a dimensão espiritual, a capacidade de amar e de acolher o amor, a capacidade de refletir a vida, o sofrimento e a morte, abstraindo-nos do que nos rodeia. Jesus aponta para esta prioridade essencial, a intimidade com Deus. Desengane-se, todavia, quem quiser fazer da religião uma dimensão meramente espiritual e separada da vida, do mundo, do tempo, da história, do espaço. Tudo o que em nós é espiritual, está ligado à terra: somos um corpo espiritual. Deus encarnou. Não queiramos desencarnar e viver sobre as nuvens. “Peço-te ó Pai, não que os retires do mundo mas que os guardes do mal” (Jo 17, 15).

Fazer da religião um acontecimento sociológico, com um conjunto de ritos, de práticas, de tradições, oportunidade de encontro, de festa, de convívio, sem a fé, sem a ligação a Deus, sem a experiência pessoal de encontro com Jesus, é redutor. Mas dispensar a dimensão comunitária (social) da fé, é descarná-la. Ora, Deus veio ao mundo e assumiu um CORPO humano, sujeito ao tempo e ao espaço. Um corpo – a Sua vida por inteiro – que Ele entregou por nós. Encontramo-nos, descobrimo-nos e amamo-nos no corpo que somos, integrando o Corpo de Cristo que é a Igreja.

Problema do nosso tempo é que temos menos casa e menos igreja. Atarefados com mil e uma coisas, não nos resta muito tempo para estarmos em casa e, sobretudo, em família. Do mesmo jeito, vamos à Igreja se não há mais nada para fazer. Se vêm uns amigos de Guimarães, ou se o almoço é de festa, deixamos a Igreja, pois pode esperar. Faltando a família e a comunidade (a casa e a Igreja), pouco nos resta para vivermos saudavelmente. Para os descrentes, para que não fiquem eternamente ensimesmados, frequentem espaços (e tempos) de encontro, de descoberta, de partilha…

Aquilo que havemos de ser só se manifestará totalmente na eternidade. Para já caminhamos, deixando que Deus nos habite e sendo morada uns para os outros.


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 95/49, n.º 4826, de 12 de novembro de 2025

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