Chegamos ao ponto alto de um tempo especial, o Tríduo Pascal (em latim: Triduum Paschale). Um tempo de vivência intensa e profunda, com início na liturgia na noite da Quinta-feira Santa, e que termina no Domingo de Páscoa.
Paixão, Crucificação, Morte, Sepultamento e Ressurreição de Jesus. Toda a essência cristã em três dias, em três grandes dias.
A Última Ceia é um dos momentos mais íntimos e, ao mesmo tempo, mais densos de significado na vida de Cristo. Ali, à mesa com aqueles que amava, os seus companheiros, Jesus parte o pão sabendo que o seu corpo seria entregue, sabendo que estava próxima a consumação, partilha o pão e o vinho antecipando o seu corpo e sangue derramado. Mesmo conhecendo tudo o que iria acontecer, existe em Jesus uma serenidade que nos toca profundamente… aceita a dor com paz pois escolhe o amor, a comunhão e o serviço. Lava os pés aos discípulos, como quem nos lembra que a grandeza, aos olhos de Deus, nasce da humildade, que somos todos iguais e filhos do mesmo Pai.
A Última Ceia espelha os momentos em que sabemos que algo difícil se aproxima, mas ainda assim somos chamados a permanecer no amor, a não endurecer o coração, a manter a fé e a esperança, a confiar em Deus.
A crucificação, por sua vez, é o ápice do sofrimento humano. No silêncio pesado da cruz, vemos a dor, a injustiça e a fragilidade da condição humana. Jesus experimenta o abandono, a angústia, a solidão — tudo aquilo que, em diferentes graus, também atravessa a nossa existência. E, no entanto, é precisamente ali, no aparente fracasso, que se revela o maior gesto de entrega e redenção.
Há algo profundamente consolador nisso, uma vez que, as nossas cruzes não são inúteis nem invisíveis. Quando vividas com fé, tornam-se lugar de encontro com Deus. A cruz não é o fim, é uma passagem, uma entrega.
É nessa medida de dor, fé e esperança que nasce a promessa do Reino de Deus. Um Reino que não se constrói sobre poder ou aparência, mas sobre amor que se doa até ao fim, gratuitamente. Um Reino onde as lágrimas são enxugadas e a morte não tem a última palavra, marca sim, o verdadeiro início.
A vivência deste Tríduo Pascal é um convite a viver em Deus, amar apesar de tudo e acreditar que, mesmo nas noites mais escuras, a ressurreição já começou a despontar.
Raquel Assis, in Voz de Lamego, ano 96/19, n.º 4843, de 1 de abril de 2026



