Já repararam que estamos a perder a cor?
Que é cada vez mais difícil distinguir se uma casa é do Minho ou de Piemonte? Que os cafés tendem todos para a mesma decoração? Que está tudo coberto por um filtro neutro e encaixotado? Podem chamar-lhe globalização, eu creio ser o início da perda de identidade.
Olhem para as ruas. Durante séculos, a arquitetura contava a história do chão que pisávamos. Em Portugal, uma casa no Minho ou no Alentejo nascia das entranhas daquele lugar específico. A pedra, a madeira, a cor ou a inclinação do telhado, tudo era um acordo entre o clima, o suor, a tradição e a necessidade. Digo-vos mais: aquelas casas tinham sotaque!
Hoje tiras uma fotografia a uma moradia nova e ficas sem saber se estás no nosso país, em Espanha ou na Austrália. São cubos brancos, vidro duplo, cinzentos anémicos e linhas minimalistas. Tudo impecável! Tudo fotogénico! Admirável Mundo Novo… e triste herança a deixar. Estamos a desaparecer, e o trágico é que estamos a achar imensa graça a esta anestesia.
Sou só eu que sou parvo, ou todos os cartazes e panfletos por aí têm agora o mesmo designer? Confundo o cartaz do evento do arroz de salpicão com as sete melhores razões para beber água. O layout é o mesmo, a mancha gráfica perfeita, bem temática, assinada pela IA porque já ninguém quer perder tempo a criar quando tudo pode sair rápido e barato de um par de prompts.
Contra a IA? Nada disso. Estou contra a falta de paciência do comum mortal em sentar-se, rasgar folhas, e criar.
Contra a IA? Nada disso. Sou contra a nossa falta de paciência para o aborrecimento de nos sentarmos, rasgarmos folhas e criarmos A máquina é inocente na sua eficácia, devorando o que lhe damos e devolvendo-nos a média estatística, esse meio-termo e em gosto inofensivo.
Pensem comigo: por que raio viajamos? Para ver o mesmo? Não! Viajamos para ver e sentir o diferente, cheirar ruas, colorir o nosso olhar, procurar detalhes na fachada de um edifício e pensar no sacrifício brutal que o ergueu. O que me incita à criatividade é maravilhar-me com a dor de coluna a pintar uma Capela Sistina, tentar perceber quem fornecia a pedra a Rodin, ou em que ácidos andaria Salvador Dalí para conceber o que concebeu. Sabem por que razão essas obras nos prendem? Porque têm personalidade.
As cidades mais fascinantes do mundo não são as lisas, as polidas ou as homogéneas. São as que acumulam camadas, contradições e pequenas loucuras arquitetónicas. Não me importo que lojas poeirentas estejam encostadas a vidro moderno ou que livrarias e tascas sobrevivam por pura teimosia e pó. Durante décadas o objetivo era destacar-se, agora parece ser não ofender ninguém com a própria existência e seguir caminho como ovelhas em rebanho.
E é exatamente no meio desta neblina de imagens paridas em frações de segundo por um teclado, onde tudo parece saído da mesma fábrica digital, que fico maravilhado quando alguém trava a fundo.
Foi por isso que parei diante do cartaz das Festas de Nossa Senhora dos Remédios, em Lamego, desenhado pela Beatriz Ramos e pela Mariana Mao, alunas da Latino Coelho. Atrevo-me a dizer que não é apenas um cartaz, é quase um ato de insubordinação e, acima de tudo, de pertença.
Neste tempos em que tantos cartazes nascem de um prompt, Lamego fez uma escolha que devia ser banal e por isso mesmo se tornou extraordinária: confiar o rosto da sua maior romaria a estas duas jovens artistas.
Gosto de ver que o cartaz não procura uma perfeição clínica, aliás, o traço respira. O branco ficou porque alguém percebeu que o silêncio também faz parte da composição, e deixou a cor sangrar pelo papel.
Sim, uma máquina consegue desenhar uma igreja, contudo, não consegue recordar o eco dos bombos a subir a avenida. Não conhece o cheiro das farturas a invadir a cidade, nem esperou pelos foguetes com a impaciência de uma criança. E nunca, em momento nenhum, regressou a casa com os sapatos cobertos de pó depois de um dia inteiro de romaria.
Dizem que tem falhas? Sabem qual é essa falha? É o pulso, é a respiração das autoras! Este cartaz não representa Lamego. Ele nasceu de Lamego. Ele é Lamego.
Daqui a uns anos, suspeito que o verdadeiro luxo não será possuir a tecnologia mais avançada. Talvez seja olhar para uma obra e saber que alguém perdeu horas da sua vida a fazê-la: mudando de ideias, rasgando folhas, falhando, voltando atrás e escolhendo um azul em vez de outra cor sem conseguir explicar porquê.
A arte nunca nasceu da perfeição, nasceu da dúvida. Talvez a rebeldia do nosso tempo já não seja romper com as regras e seja apenas conservar uma identidade, construir uma casa que conte a história de quem a habita, escrever um texto que tenha voz própria e desenhar um cartaz que só pudesse ter nascido naquele lugar.
Há uma diferença enorme entre fazer algo do nosso tempo e ser uma cópia do nosso tempo: é nessa diferença que mora alguém com nome.
Parabéns às duas jovens, à iniciativa da cidade e à sinergia brilhante que as rodeou. E aqui, deixo um justo avé ao Nuno Faustino, o responsável pela remasterização final desta obra. Num tempo em que o design gráfico tantas vezes asfixia a arte com formatações estéreis e filtros sintéticos, teve a sensibilidade de emoldurar este grito sem lhe abafar a voz, respeitando o pulso humano que sempre lá esteve.
Juntos, não criaram apenas um cartaz:
Ergueram uma barricada contra o óbvio!
Ricardo da Fonseca, Consultor




