A Solenidade do Sagrado Coração de Jesus é algo que nos deve inquietar, despertar. Num tempo marcado pela pressa, pela indiferença e por relações frequentemente superficiais, a Igreja e os crentes voltam o seu olhar para o coração trespassado de Cristo, sinal do amor de Deus que não se cansa de procurar a humanidade. A devoção ao Sagrado Coração não é apenas uma prática piedosa, é um convite a contemplar o centro da fé cristã: um Deus que ama até ao extremo, independentemente de tudo!
O primeiro monumento, no mundo, consagrado ao Sagrado Coração de Jesus é a nossa conhecida Basílica da Estrela. Foi mandada construir pela rainha D. Maria I, em 1779, ainda antes do reconhecimento oficial pelo papa Pio IX, em 1856, como promessa pelo nascimento do primeiro filho varão, D. José.
Na terceira aparição de Jesus a Santa Margarida Maria de Alacoque, em 1675, provavelmente em 16 de junho, Jesus disse: «Eis o coração que amou os homens. … Ao invés de gratidão, recebo da maior parte [da humanidade] apenas ingratidão». Jesus deixou doze grandes promessas às pessoas que participassem das comunhões reparadoras das primeiras sextas-feiras.
O saudoso Bento XVI dedicou várias reflexões a esta solenidade. No Angelus de 5 de junho de 2005, poucos meses após a sua eleição, recordou que, na linguagem bíblica, o coração representa o centro da pessoa. Por isso, venerar o Coração de Cristo significa adorar o amor de Deus pela humanidade, a sua vontade de salvação universal e a sua infinita misericórdia.
A mensagem do Sagrado Coração permanece, por isso, profundamente atual. Num mundo onde tantas vezes prevalecem a lógica do interesse e da exclusão, o Coração de Jesus recorda que o amor autêntico implica entrega, compaixão e capacidade de perdoar. Celebrar esta solenidade é aceitar o desafio de configurar o nosso coração ao de Cristo, aprendendo a olhar cada pessoa com a mesma misericórdia com que Deus nos contempla.
Mais do que uma devoção do passado, o Sagrado Coração continua a ser uma escola de humanidade e de esperança para os cristãos do nosso tempo. Venerar um coração trespassado deve despertar-nos, a cada dia, para o perdão e reconciliação, como forma de entrega total a Deus nosso Pai.
Raquel Assis, in Voz de Lamego, ano 96/29, n.º 4854, de 10 de junho de 2026



