Quando Israel se preparava para invadir Moab, o rei Balac, filho de Cipor, mandou chamar Balaão, filho de Beor, para amaldiçoar o povo hebreu. «Eis que um povo que saiu do Egito cobre a face da terra e está a habitar na minha frente. Por isso, vem, por favor, amaldiçoar por mim este povo, pois ele é mais forte do que eu. Talvez assim eu possa batê-lo e expulsá-lo desta terra, pois sei que quem tu abençoas é abençoado e é maldito quem tu amaldiçoas».
Balaão resiste a partir, mas ouve a voz de Deus, o Deus de Israel, e obedece ao mandato de ir à terra de Moab. Inicialmente, Deus diz-lhe que não deve ir, pois não pode amaldiçoar um povo bendito, mas depois ordena-lhe que parta, mas para dizer apenas as palavras que Ele lhe dirá. O vidente partiu, mas ira do Senhor inflamou-se contra ele. Aqui entra a jumenta que o transporta. A jumenta desvia-se do caminho que Balaão queria percorrer. Uma e outra vez. À terceira vez, a jumenta deixa-se cair debaixo dele. Balaão chicoteou a jumenta. Irritado, bate-lhe com o bastão. A jumenta interroga Balaão: «Que te fiz eu, para me bateres já por três vezes?» Balaão respondeu à jumenta: «Foi porque zombaste de mim! Se na minha mão houvesse uma espada, matava-te agora mesmo!» A jumenta disse a Balaão: «Acaso não sou eu a tua jumenta sobre a qual muito cavalgaste desde sempre até ao dia de hoje? É, porventura, meu costume proceder assim contigo?». Entretanto, o Senhor abriu os olhos de Balaão e este viu o mensageiro do Senhor postado no caminho com a sua espada desembainhada na mão. Inclinou-se e prostrou-se com a sua face por terra. O mensageiro do Senhor disse-lhe: «Porque chicoteaste três vezes esta tua jumenta? Eis que eu vim para servir de impedimento, porque para mim este caminho é errado. A jumenta viu-me e desviou-se da minha frente por três vezes. Foi por sorte que ela se desviou de mim, pois era precisamente a ti que eu iria matar e deixá-la-ia viver a ela».
Balaão disse ao mensageiro do Senhor: «Pequei, porque não sabia que tu estavas postado à minha frente no caminho. E agora, se fiz mal aos teus olhos, voltarei para trás!» O mensageiro do Senhor disse a Balaão: «Vai com os homens, mas dirás apenas as palavras que eu te disser».
Foi preciso a visão da jumenta para o vidente perceber que algo estava errado e que o caminho a seguir não estava em concordância com a vontade de Deus.
Chegado junto do rei de Moab, Balaão é conduzido pelo rei a lugares elevados de onde avista o acampamento dos israelitas. O vidente profere as suas palavras, mas fiel ao Senhor Deus, as suas palavras são de bênçãos. «Como amaldiçoarei o que Deus não amaldiçoou? Como ameaçarei o que o Senhor não ameaçou? … Levanta-te e escuta, Balac; dá-me ouvidos a mim, filho de Cipor. Deus não é um homem para mentir ou um ser humano que tenha que se arrepender. Será que Ele diz e não faz? Ordena e não realiza? Eis que fui requisitado para abençoar. E se Ele abençoou, eu não o vou revogar. Não se descobriu iniquidade em Jacob, nem se viu transgressão em Israel; com ele está o Senhor, seu Deus, nele ressoa uma aclamação real. Deus fê-lo sair do Egito; e ele tem a força de chifres de búfalo. Pois não há encantamento contra Jacob, nem adivinhação contra Israel. A seu tempo será dito a Jacob e a Israel aquilo que Deus realiza. Eis um povo que como leoa se levanta e como leão se ergue; não se deitará enquanto não devorar a presa e não beber o sangue das vítimas… Oráculo de Balaão, filho de Beor, oráculo do homem de olhar penetrante; oráculo daquele que escuta as palavras de Deus, daquele que recebe as visões do Todo-Poderoso, que se prostra e mantém os olhos bem abertos. Como são belas as tuas tendas, ó Jacob, as tuas moradas, ó Israel! Como torrentes elas se expandem, como jardins à beira rio; como aloés que o Senhor plantou, como cedros junto às águas… Quem te abençoar é abençoado e quem te amaldiçoar é amaldiçoado!… Hei de vê-lo, mas não agora, hei de contemplá-lo, mas não próximo. Uma estrela desponta em Jacobd, um cetro se ergue em Israel; ele esmagará as têmporas de Moab e massacrará todos os filhos de Sete».
Será que precisamos da jumenta para deixarmos que Deus nos abra os olhos? Sabemos abençoar aqueles que Deus abençoa? Se para Deus todos são filhos…
Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/21, n.º 4845, de 15 de abril de 2026




