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O amor é o que pausa o inferno

Esta é uma expressão de Pedro Chagas Freitas, no seu livro “Raridade das Coisas Banais”. Por aqui se vê muita inspiração cristã! Numa escrita escorreita, o autor usa frases que parecem chavões fáceis e até simplórios! Mas, talvez também por isso, que nos fazem refletir. Muitas vezes, o que é mais simples, é afinal o que verdadeiramente importa. A simplicidade liga-nos aos outros, a leveza da vida, a espontaneidade dos momentos, a relativização das adversidades, a abertura ao futuro, aproveitando os momentos presentes para saborear a vida, partilhando-a.

Mas vejamos outras expressões igualmente desafiadoras: “O amor é o que interrompe a decadência”. Amar e ser amado torna a vida mais leve, agradável, mais duradoura. O tempo passa rápido, mas, simultaneamente, parece que se viveram mais horas.

Com efeito, “amar não é repartir uma jaula, é partilhar um céu… amar é deixar que o riso de um se misture com o do outro, que as lágrimas escorram pela cara do outro”. Seja qual for a dimensão do amor, ao nível da amizade, do namoro, do casal, dos pais em relação aos filhos e destes em relação aqueles, o amor que se torna serviço aos mais desprotegidos, o amor liberta-nos do egoísmo e da pasmaceira. Até a saúde ganha com o amor, com o compromisso afetivo. Claro, voltamos a avivar a memória, quem se sujeita a amar sujeita-se a padecer. É a lógica do temor de Deus. Não se teme a Deus, mas teme-se ofender Quem se ama. Vale para a relação com o outro, se amas, não queres magoar, tens medo de ferir, de desiludir, de deixar para trás. Amar é partilhar o sonho, mas também aliviar a carga do outro. “Vinde a Mim vós que andais cansados e oprimidos e Eu vos aliviarei”. Quem ama faz caminho e procura que o caminho do outro seja seguro. Assim o faz Jesus com a humanidade. “Eu Sou caminho, verdade e vida”. Jesus faz-Se caminho connosco e é o caminho que nos leva ao Céu. Por amor, assume-nos por inteiro e por inteiro leva essa opção até ao fim, morrendo por amor, para que tenhamos vida em abundância.

“Amar é desejar o caminho mais longo só para podermos caminhar mais tempo ao lado de quem amamos”. Também aqui poderemos olhar para Deus que Se revela em plenitude em Jesus. Criou-nos por amor e por amor quer caminhar connosco, por conseguinte, faz-Se um de nós, entranhando-se na nossa história e os nossos sofrimentos, para nos ajudar a superar o que nos sobrecarrega e nos ensinar, novamente, que só o amor nos trará a paz, só o amor nos salvará, só o amor afastará, de nós, o inferno. “O amor é uma aproximação à perfeição”. Só Deus é perfeito, só Deus é santo! Só Deus é Amor, perfeito, pleno, infinito. Amando, aproximamo-nos de Deus, ou da perfeição. Como dirá são João, quem ama permanece em Deus e Deus n’Ele.

O amor levou Jesus ao Calvário, à Cruz, levou Jesus à morte! A Cruz, como muitas vezes se anuncia, não é apenas, nem sobretudo, e expressão do sofrimento humano, da atrocidade, da prepotência dos poderosos. Não se gosta da Cruz por “gosto” ou masoquismo! A Cruz é sinal e expressão do amor assumido por inteiro, com as alegrias e esperanças, mas também com as contradições e sofrimentos. Jesus não morre pelos bons! Jesus morre por todos. Por mim e por ti. Pelos de ontem e pelos de amanhã. A Cruz é entrega, oblação, é amor que não se cansa e não se esgota e logo nos projeta para o alto, para a eternidade. O amor só o será de verdade se almejar a eternidade. Sem promessa de eternidade, sem durabilidade, o amor será apenas um sonho passageiro, insignificante e inútil. Se ficas na Cruz, ficas na morte, desapareces e contigo o amor não terá passado de um leve sopro, uma desolação infernal.

E para concluir, citando novamente autor com que iniciámos este texto: “Dizem que o amor desampara, que nos deixa expostos demais ao que nos acontece, quando o que me parece é que o amor nos protege, ficamos atrás do amor como atrás de uma muralha”. Só o amor nos diviniza! Só o amor, na verdade, nos torna autenticamente humanos!


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/09, n.º 4834, de 21 de janeiro de 2026

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