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Nossa Senhora da Soledade, em São Pedro de Mós

No próximo dia 20 de setembro, terceiro domingo de setembro, a comunidade paroquial de São Pedro de Mós congrega-se para celebrar as festividades em honra de Nossa Senhora da Soledade, devoção profundamente enraizada na memória religiosa e coletiva desta comunidade.

A origem desta celebração remonta ao ano de 1855, num contexto particularmente dramático da história local, marcado por uma vaga epidémica que atingiu severamente a população de Mós. A epidemia de cólera-morbus/febre amarela, sentida desde a primavera, conheceu particular intensidade durante o mês de agosto, provocando numerosas mortes e mergulhando a comunidade num ambiente de sofrimento, luto e insegurança, tal como sucedeu por todo o concelho de Vila Nova de Foz Côa.

Perante a dimensão da calamidade e a insuficiência dos meios disponíveis para lhe fazer frente, a população recorreu à proteção divina, confiando-se particularmente à intercessão da Virgem Maria, que venerada na sua igreja matriz sob a invocação de Nossa Senhora da Graça.

A tradição mosense relaciona o abrandamento da epidemia, verificado no início de setembro de 1855, com essa súplica coletiva. Da experiência da calamidade nasceu, assim, um compromisso comunitário: honrar anualmente Nossa Senhora, em ação de graças pela sua proteção e perpetuar a memória dos acontecimentos desse trágico ano.

A escolha da invocação de Nossa Senhora da Soledade não é indiferente ao contexto em que a devoção se consolidou. A Soledade remete para a solidão de Maria após a morte e sepultura de Cristo: a Mãe que permanece diante do mistério da morte, ferida pela ausência do Filho. Esta representação encontrava particular correspondência na experiência das famílias de Mós, também elas confrontadas com a morte dos seus, com o vazio da ausência e com a permanência da saudade.

Segundo a memória transmitida, a partir de 1856, a festa passou a realizar-se no terceiro domingo de setembro, integrando celebrações religiosas, procissão e atos penitenciais. Os testemunhos escritos legados por José Gomes Quadrado em vários jornais e a Monografia Histórica de São Pedro de Mós, de Joaquim Castelinho, permitem documentar a permanência e a importância desta tradição. A monografia regista expressamente a promessa dos habitantes de honrarem Nossa Senhora da Soledade no terceiro domingo de setembro e assinala como esta comemoração se tornou um dos principais momentos de atração dos filhos da terra, incluindo aqueles que, residindo longe, regressavam a Mós para venerar a imagem.

A própria escultura de Nossa Senhora da Soledade constitui um elemento central desta memória devocional. O seu semblante, marcado pela tristeza e pelas lágrimas materializa iconograficamente o significado da invocação. Joaquim Castelinho destaca precisamente o rosto banhado de lágrimas, marcado pelo sofrimento, apresentando a imagem recebida dos antepassados como um dos mais significativos legados religiosos da comunidade. 

A devoção não se circunscreveu, contudo, às festividades de setembro. Nossa Senhora da Soledade encontrava-se igualmente associada às antigas celebrações das Endoenças e da Paixão do Senhor. Na Sexta-Feira Santa, a imagem, revestida de luto, integrava o cerimonial do encontro com a procissão do Enterro do Senhor. Esta prática evidencia a matriz eminentemente cristológica da devoção: venerar a Soledade de Maria significava contemplar a Mãe associada à Paixão, Morte e Sepultura de Cristo.

Ao longo do tempo, a celebração ultrapassou a memória imediata da epidemia e adquiriu uma importante função de coesão comunitária e identitária. O terceiro domingo de setembro tornou-se tempo de regresso, reencontro e pertença. A própria monografia recorda os mosenses dispersos que, roídos de saudades, regressavam à terra natal para participar na festa e reencontrar familiares e amigos.

É neste horizonte histórico e devocional que deve ser compreendida a procissão que ainda hoje percorre as ruas de São Pedro de Mós. A imagem transportada aos ombros no seu andor em forma de barca, o estandarte, as fitas e as ofertas dos devotos não constituem apenas elementos exteriores de uma festividade religiosa: são expressões materiais de uma memória transmitida entre gerações.

Passados mais de cento e setenta anos, celebrar Nossa Senhora da Soledade continua, por isso, a significar muito mais do que conservar uma tradição. Significa recordar epidemia do ano de 1855, compreender a promessa que dela nasceu e reconhecer a capacidade de uma comunidade transformar a experiência da morte em memória, a memória em devoção e a devoção num vínculo de pertença comunitária.

Em São Pedro de Mós, a Senhora da Soledade permanece, assim, entre a dor e a esperança, entre a memória dos que partiram e a fé dos que continuam a regressar.


Pe. Luciano Moreira / Fotos: Pedro Daniel, in Voz de Lamego, ano 96/41, n.º 4866, de 16 de setembro de 2026

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