Enquanto o país dormia entre promessas para o próximo verão e brasas ainda a receber pingas da dança da chuva, o infortúnio manteve-se acordado…
Nesta última semana, antes de tudo, pensei nas famílias que não viram os seus regressar a horas de jantar, nos feridos que lutaram entre a vida e a morte, e em todos os que, sem culpa, ficaram marcados para sempre por um dia que devia ter sido comum.
Nada apaga o choque de sentir que até a rotina mais banal pode esconder uma tragédia na curva.
Sim, Lisboa descarrilou e, com ela, engatou na solidariedade geral do país. O estalar brutal do Elevador da Glória transformou-se num grito metálico, em ossos partidos contra betão e, infelizmente, em silêncio imposto a quem nunca mais terá voz. Mortos e feridos em números que se repetem em todas as bocas, como se a aritmética pudesse aliviar o peso da ausência.
E lá estavam os microfones a perguntar: “foi falta de manutenção?”, “são portugueses?”, “o número de mortos está fechado?”, como se alguém pudesse adivinhar o destino daqueles que ainda respiram entre tubos e máquinas. A morte, neste país fadista, é sempre um espetáculo interrompido por anúncios de última hora!
Nada disto tem ponta de piada, embora se cumpra o ritual: o Presidente cancela a festa, o Governo decreta luto, os autarcas choram em direto. É a liturgia da tragédia, meus amigos, ensaiada vezes sem conta… E nós? Assistimos, comovidos, como se não soubéssemos já de cor as falas…
Mas, não deixo de pensar, que o mais irónico é a coreografia do destino: a chuva caiu estes dias… A mesma chuva que, tarde demais, chega sempre para salvar florestas já calcinadas, veio agora lavar as cinzas do verão. Os incêndios, as vidas consumidas nas serras, já não são manchete, sendo trocadas pelo estrondo de Lisboa.
A morte, neste país, tem hierarquia: primeiro as chamas que se apagam, depois os cabos que rebentam, e amanhã, outra calamidade ocupará o lugar das anteriores.
Vivemos de tragédia em tragédia, como quem muda de estação de rádio. Nunca é o suficiente para reformar, apenas para lamentar. A aprendizagem é soterrada por suspiros. O nosso Portugal é um país que chora alto, mas esquece depressa. As lágrimas de empatia caem com a mesma cadência da chuva: intensas, momentâneas e, pouco depois, evaporadas.
E assim, entre o fogo que já não arde e o ferro que se vergou em morte, sobra-nos esta sensação amarga de sermos uma nação que só se reconhece no luto. Vivemos nesta casa de Fados, entre o reagir em vez de prevenir, rebentando cordas em cada dedilhar mais intenso.
Somos o país que, de tanto enterrar mortos, já não sabe como cuidar dos vivos.
Ricardo da Fonseca, in Voz de Lamego, ano 95/41, n.º 4818, de 10 de setembro de 2025



