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Nascemos ali… no país da Páscoa

Somos Páscoa. Não há cristão que não tenha nascido na Páscoa de Jesus Cristo. Nem cristãos, nem Igreja. A paixão redentora de Jesus e a Sua ressurreição, três dias depois da sua morte na Cruz, faz-nos herdeiros da plenitude do amor que se manifesta, se revela e se concretiza em Jesus Cristo, na Sua vida, palavras, gestos e obras.

Não há Igreja que não derive do mistério pascal de Jesus. No mistério pascal está incluída a paixão, a morte, a Páscoa, preenchida da Ascensão e do Pentecostes! Na verdade, a vida inteira de Jesus está aqui, o mistério da encarnação faz parte também deste mesmo mistério de salvação: Deus assume-nos por inteiro, assumindo a nossa condição humana, a nossa finitude, tornando-Se, em Cristo, um de nós, um connosco. É o quadro completo que se faz presente na Igreja e nos Sacramentos. Estes só são realizáveis em Igreja, com a comunidade reunida em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

É a nossa pátria, o nosso país, a nossa identidade.

Se há cristãos, é porque antes existiu Cristo, o Messias, o Filho de Deus. Estamos já no plano da fé. A existência (histórica) de Jesus está mais que documentada, aliás, hoje há dados cada vez mais fidedignos para fazer uma cronologia bastante aproximada do que terão sido os seus dias na terra, mais do que em relação a algumas personagens histórias da mesma época e de épocas posteriores; a documentação é bastante abundante, além do estudo dos contextos em que viveu e das tradições próprias daquele tempo e da vivência judaica. Quando assumimos que Jesus é Cristo, reconhecemos que Ele é verdadeiramente o Messias prometido, o Emanuel, o Príncipe da Paz, o Bom Pastor e, para nós, o próprio Filho de Deus.

O que dizemos dos cristãos, dizemos da Igreja. É em Igreja que nos tornámos membros do Corpo de Cristo. Com efeito, a Igreja é o Corpo de Cristo, no tempo e na história. Ele vive neste Corpo, como cabeça, sendo nós os membros. Se somos membros, pertencemos a um corpo, vivemos, alimentamo-nos do mesmo alimento, partilhamos a mesma seiva, a mesma vida, só somos autênticos se verdadeiramente circula em nós o mesmo amor, a mesma fé, a mesma compaixão, como as vides em relação à cepa, imagem usada pelo próprio Jesus! Se um ramo é cortado, perdendo a ligação à cepa, acabará por secar e não servir para mais nada ou quando muito servirá para o lume ou para criar algum móvel. Nestes casos, porém, prevalecerá a morte, ainda que possam ter uma última utilidade, para aquecer ou preparar um alimento, ou para servir de assento, para mesa, para armário, para decoração… ainda assim, o ramo desligado da cepa está acabado como videira, não mais produzirá uvas, não mais terá a possibilidade de se converter em bebida!

Na vigília pascal, os símbolos da luz e da água, remetem-nos imediatamente para o batismo. Com a Páscoa, a vastidão do Céu chega até nós, irrompe em toda a terra, a vida divina é partilhável connosco. Ele veio para ser um de nós, ressuscitando, Jesus eleva a nossa natureza humana à eternidade de Deus. A vida que nos é prometida, a vida eterna, inicia-se já, aqui e agora, e começa a germinar com o batismo. Pela água e pelo Espírito Santo, somos sepultados na morte e no pecado, sepultados com Cristo, para com Cristo ressuscitarmos e, nessa medida, os gérmenes da morte são substituídos pelos gérmenes da vida. Somos novas criaturas, já não nos pertencemos, somos pertença de Cristo, não por imposição, mas por vocação, por compromisso, por adesão na fé. Os sacramentos, celebrados, vividos em Igreja, asseguram-nos, por ação do Espírito Santo, a presença de Jesus Cristo ao longo dos tempos. Jesus não fica prisioneiro no passado, a Cruz é trampolim, o sepulcro é provisório, a morte é uma etapa e não um termo. A Cruz expressa o amor levado às últimas consequências, mas para lá da Cruz, a luz da Ressurreição, da vida nova. Somos filhos da Páscoa. Em cada sacramento, o mistério pascal de Jesus se faz presente. Jesus dá-nos o Seu Espírito, o Espírito Santo dá-nos Jesus nos sacramentos, em Igreja, especialmente em cada Eucaristia, celebramos o mistério pascal e Jesus torna-Se nosso contemporâneo. Sejamos a Sua Páscoa para todos!


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/20, n.º 4844, de 8 de abril de 2026

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