HomeDestaquesNão somos órfãos!

“Não somos filhos ilegítimos”. Houve um tempo em que ser filho ilegítimo, quase filho de ninguém, sem pai conhecido ou pai incógnito, era um estigma social. Quando tal acontecia, não se falava muito disso, muito menos diante daquele que “não tinha pai”. Aliás, dizer a alguém que não tinha pai era ofensivo. Uma qualquer discussão acriançada e atirava-se com essa acusação, denegrindo, não apenas o filho, mas também a mãe. Os tempos são outros, mas por certo a ninguém agradará ser chamado de filho ilegítimo.

Esta é uma resposta viva de alguns judeus à invetiva de Jesus: «Nós somos descendentes de Abraão e nunca fomos escravos de ninguém!…». Ouçamos a réplica de Jesus: «Em verdade, em verdade vos digo: todo aquele que comete o pecado é servo do pecado, e o servo não fica na família para sempre; o filho é que fica para sempre. Pois bem, se o Filho vos libertar, sereis realmente livres. Eu sei que sois descendentes de Abraão; no entanto, procurais matar-me, porque não aderis à minha palavra. Eu comunico o que vi junto do Pai, e vós fazeis o que ouvistes ao vosso pai… Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão! Agora, porém, vós pretendeis matar-me, a mim, um homem que vos comunicou a verdade que recebi de Deus. Isso não o fez Abraão! Vós fazeis as obras do vosso pai». E novamente a contestação dos judeus: «Nós não nascemos da prostituição. Temos um só Pai, que é Deus».

Depois da contraposição de Jesus, os judeus remetem para a paternidade de Deus. Novamente Jesus lhes diz: «Se Deus fosse vosso Pai, ter-me-íeis amor, pois é de Deus que Eu saí e vim. Não vim de mim próprio, mas foi Ele que me enviou. Porque não entendeis a minha linguagem? Porque não podeis ouvir a minha palavra? Vós tendes por pai o diabo, e quereis realizar os desejos do vosso pai. Ele foi assassino desde o princípio, e não esteve pela verdade, porque nele não há verdade. Quando fala mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira. Por isso, não acreditais em mim, porque vos digo a verdade. Quem de vós pode acusar-me de pecado? Se digo a verdade, porque não me acreditais? Quem é de Deus escuta as palavras de Deus; vós não as escutais, porque não sois de Deus» (Jo 8, 33-47).

Ao longo do Seu ministério, Jesus revela que Deus é Pai de todos, Seu e nosso Pai. Deus não é um exclusivo dos judeus, nem uma vantagem para os perfeitos e os santos, não tem nacionalidade, não está condicionado por nenhuma cultura, nem sequer por nenhuma religião. Jesus obriga-nos a abrir horizontes. Deus é Pai de todos. Para alguns judeus, Deus privilegiaria os crentes, os bons, e, no entanto, Jesus vem para os pecadores e publicanos, para os mais pobres e desfavorecidos, vem para todos. Quando os judeus concluem que só têm um Pai, que é Deus, e que não são filhos ilegítimos, estão a dar razão a Jesus. Virá o tempo em que O acusam de se fazer passar por filho de Deus, quando eles afirmam a mesma paternidade divina.

Depois de nos assumir como irmãos, reconhecendo-nos como Filhos de Deus, Jesus, no alto da cruz, dá-nos Maria por Mãe. «Eis a tua Mãe» (Jo 19, 26-27). Partindo desta passagem, o Papa Francisco, no dia 13 de maio de 2017, no centenário das Aparições, em Fátima, enfatiza: “Temos Mãe! … à noite, a Jacinta não se conteve e desvendou o segredo à mãe: «Hoje vi Nossa Senhora». Tinham visto a Mãe do Céu… Queridos peregrinos, temos Mãe, temos Mãe! Agarrados a Ela como filhos, vivamos da esperança que assenta em Jesus… Quando Jesus subiu ao Céu, levou para junto do Pai celeste a humanidade – a nossa humanidade – que tinha assumido no seio da Virgem Mãe, e nunca mais a largará. Como uma âncora, fundeemos a nossa esperança nessa humanidade colocada nos Céus à direita do Pai (cf. Ef 2, 6).”

Peregrinos da esperança, certos de que temos Pai que nos ama e uma Mãe que nos aproxima da ternura de Deus. Vamos adiante, com coragem e alegria.


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 95/25, n.º 4802, de 6 de maio 2025

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