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Na Cruz com os dois ladrões, azedume e gratidão

Vivemos o centro da vida cristã, a Semana Santa que desemboca no Tríduo Pascal, mistério da morte e ressurreição de Jesus Cristo, filho amado de Deus Pai. Não podemos, como cristãos, como discípulos de Jesus, ficar à distância, de fora, em segurança, para que os Seus olhos, a Sua voz, não nos firam, não nos envolvam, não nos toquem com medo de sermos transformados por Ele.

Depois de falar em parábolas aos fariseus e doutores da Lei, Jesus explica aos discípulos: «Porque a vós foi dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não. Pois àquele que tem, ser-lhe-á dado e acrescentado; mas àquele que não tem, até o que tem lhe será tirado. É por isso que lhes falo em parábolas: porque vendo, não veem, e ouvindo, não ouvem nem entendem. Assim, neles se cumpre plenamente a profecia de Isaías, que diz: Com o ouvido, ouvireis, mas nunca haveis de entender, e, de facto, olhareis, mas nunca haveis de ver. Endureceu-se o coração deste povo: eles escutaram com ouvidos endurecidos e fecharam os seus olhos. Não fosse acontecer que vissem com os olhos, ouvissem com os ouvidos, entendessem com o coração, e voltassem atrás e Eu os curasse» (Mt 13, 11-15). Para que os nossos corações não endureçam, para que o nosso olhar não nos cegue, não nos afastemos de Jesus, vamos o mais próximo possível. Desafio-vos, desta vez, a colocar-vos, melhor, a colocar-nos, ao lado de Jesus, numa das cruzes dos salteadores crucificados com Ele

Há dias, num jantar, um colega sacerdote, dizia que perante a mesma situação, os dois salteadores reagem de maneira diferente (cf. Lc 23, 39-43). Esta interpelação respondia ao facto de haver pessoas que estão constantemente a lamentar-se, a dizer mal de tudo e de todos, nunca estão satisfeitas com nada, com ninguém, sempre há algo a criticar, sempre a viver na insuficiência. O copo meio vazio que afinal também está meio cheio, dependendo do ponto de vista, da sensibilidade de cada um. Uma pessoa que vive no azedume caminha carregada com um peso tal que tudo é estorvo, obstáculo, razão para aborrecimento. Uma pessoa agradecida saberá encontrar motivos para sorrir mesmo quando tudo parece tenebroso.

A situação é final, definitiva, alguns breves instantes e tudo terminará, no que ao tempo e à história diz respeito. Um dos malfeitores embarca na onda, na correnteza do escárnio, da maledicência, da opinião que grita sem se ouvir e sem ouvir os outros. O outro sabe que não lhe resta muito tempo, mas sabe também que ainda há tempo para olhar, ver, suplicar, reconhecer Aquele que ali está crucificado. Alguém que esteja numa cruz, vendo o fim a aproximar-se, mal respirando, não terá grande ânimo (alma) para refletir, parar, rezar, não terá disposição para nada, ainda assim estoutro salteador repreende o colega de infortúnio e volta o seu coração e a sua vida para Jesus. A sua profissão de fé condu-lo ao paraíso, à paz duradoura, ao conforto da eternidade.

Há muitas situações em que a vida nos prega partidas, em que a esperança é colocada à prova, em que tudo parece estar contra nós, então talvez nesses momentos precisemos do olhar e da sabedoria do bom ladrão para colocarmos a nossa esperança n’Aquele que nos pode salvar. Podemos não ter muito tempo ou não conseguirmos alterar a situação em que nos encontramos, mas ainda assim não desesperarmos, não nos deixarmos abater. Podem matar-nos, como a Jesus, mas a vida não no-la tiram, pois a nossa identidade, o nosso ser, é nosso, é muito mais do que a dimensão física. O desfecho é igual para os dois salteadores, e para Jesus, mas a atitude face a este desenlace é diferente. O Bom ladrão ousa viver, assumindo o percurso feito até ali, não culpando dos outros pela sua desgraça, não descarregando a sua frustração em cima dos outros, conhecendo-os ou não. O “mau ladrão” continua a reclamar, a destilar ódio, a injuriar, como se tal lhe permitisse ser absolvido e retirado da cruz!

Perante as adversidades, como reagimos? Acusamos os outros? Azedamos? Ou procuramos assumir a nossa responsabilidade? Somos portadores de azedume ou de bênção?


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/19, n.º 4843, de 1 de abril de 2026

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