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Inteligência Artificial e o trabalho humano

Quando o Papa Leão XIII publicou a encíclica Rerum Novaram, a preocupação pelas “coisas novas” mostrava as alterações profundas que a revolução industrial traria às famílias e às comunidades. Acentuou-se o medo que as máquinas substituíssem facilmente a mão de obra. Alterou também a relação entre patrões e empregados. Com menos esforço, menos mão de obra, mais resultados. Por outro lado, apesar de facilitar ou aliviar o trabalho braçal, nem por isso aliviou a sobrecarga de trabalho, a exigência cada vez maior para obter mais rendimento. Os pobres, sempre os pobres, com poucos direitos e muitas obrigações! “A Rerum novarum, de Leão XIII, afirma o direito a um salário justo para ele e sua família; reconhece nas pessoas um valor essencial, prioritário em relação ao capital e ao lucro… o primado do trabalho humano sobre qualquer tipo de lógica puramente produtiva ou financeira” (30).

A revolução industrial trouxe benefícios, libertou mão de obra e permitiu tempos de férias e de descanso, fez emergir sindicatos e movimentos de trabalhadores, criando as condições para responder às necessidades das pessoas, famílias e nações inteiras. No entanto, criou novos fossos, entre ricos e pobres, entre nações do norte e nações do sul.

As potencialidades criadas pelas tecnologias, algoritmos, IA’s, tornou mais fácil e eficiente a intervenção em muitas áreas, no processo de ensino-aprendizagem, na indústria, na medicina, com novos riscos associados ao colocar, mais uma vez, o poder na mão de poucos e, em tempos de conflitos bélicos, criando tecnologia capaz de aniquilar a humanidade. O desenvolvimento das IA’s exige vigilância, ponderação e consciência, e mecanismos nacionais ou supranacionais de controlo, não sujeitos a multinacionais, a monopólios, a interesses particulares de uns.

O trabalho e o a empregabilidade estão em fase de grande mutação. Dispensam-se pessoas e o sonho do pleno emprego transforma-se em pesadelo de pleno desemprego. Se a centralidade for o trabalho e a eficiência, em pouco tempo se multiplicarão os grupos de pessoas excluídas. É imperioso encontrar novos equilíbrios que recoloquem a pessoa e a família no centro. O sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado. O trabalho realiza-nos como pessoas. “É desejável que a tecnologia alivie o homem de trabalhos particularmente pesados, repetitivos ou perigosos e ofereça um apoio inteligente à atividade humana; porém, o princípio geral deve continuar a ser a proteção dos postos de trabalho e do papel insubstituível da pessoa. O objetivo de maiores lucros não pode justificar escolhas que sacrifiquem sistematicamente o emprego, pois a pessoa humana é um fim e não um meio, e a ordem económica deve manter-se subordinada à sua dignidade e ao bem comum” (152). Na verdade, “o trabalho continua a ser uma dimensão fundamental da experiência humana: não é só um meio de subsistência, mas um lugar de expressão, relações e contributo para a comunidade” (154), “não é apenas fonte de rendimento, mas um âmbito decisivo onde se forma a identidade, se tecem amizades e relações, se aprendem responsabilidades concretas e se discerne a própria vocação” (167).

Na Populorum Progressio, são Paulo VI deixava que claro que o desenvolvimento dos povos era o outro nome para a paz. Com efeito, a pobreza, de pessoas e povos, leva ao descontentamento e à revolta, criando conflitos que se multiplicam e se tornam cada vez mais violentos, no interior das famílias, nos bairros, nas regiões, contagiando as comunidades vizinhas. Sublinha Leão XIV que “o verdadeiro progresso nasce sempre de um coração aberto ao outro, de uma inteligência disponível para ouvir, de uma vontade que procura mais o que une do que o que separa” (15).

Se a pessoa vale enquanto é “útil”, a sua dignidade só é garantida enquanto tem saúde e gera rendimento; com o tempo, tornar-se-á dispensável, pois a tecnologia avança mais rapidamente que a adaptabilidade humana, e, por outro lado, a pessoa vai perdendo reflexos, faculdades, tornar-se-á mais lenta, tornando-se substituível e descartável. As pessoas que nascem agora estão um passo à frente daquelas que nasceram há 50 anos.

É fundamental perceber que “o desenvolvimento é humano quando coloca as pessoas no centro e não a acumulação de bens, quando abrange também os povos e não apenas os indivíduos” (83). Se nos fixamos no lucro, na eficiência, fazendo prevalecer a lei do mais forte, estamos a criar situações explosivas de conflitualidade e a caminhar rapidamente para a morte, para a destruição do tecido familiar e para a perda de identidade de aldeias, cidades e nações. E sem raiz, sem história, estaremos mais perto de nos perdermos.

Aproveitemos as “facilidades” tecnológicas para nos aproximarmos mais uns dos outros, cuidando uns dos outros e do mundo que é a nossa casa.


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/42, n.º 4867, de 23 de setembro de 2026.

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