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Inquieto está o nosso coração…

“Inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti” (Santo Agostinho)

Há dias em que as palavras parecem não chegar. Sentimos muito, mas dizemos pouco. Guardamos no peito alegrias, medos, culpas e esperanças, como se falar fosse abrir uma porta que não sabemos bem controlar. No fundo, dizer o que sentimos exige coragem. É expor fragilidade, é deixar que o outro nos veja como realmente somos — e isso nem sempre é fácil.

Vivemos num tempo em que comunicamos constantemente, mas nem sempre nos encontramos de verdade. Falamos muito, mas escutamos pouco, até a nós próprios. Às vezes, nem sabemos dar nome ao que sentimos. Outras vezes, sabemos… mas temos medo da reação do outro, de não sermos compreendidos ou, pior ainda, de sermos rejeitados.

A fé mostra-nos que Deus não tem medo das nossas emoções. Nos Salmos, encontramos gritos de dor, de revolta, de alegria e de confiança. Jesus, no Evangelho, também sente: chora, alegra-se, angustia-se. Ele não esconde o coração. Pelo contrário, revela-o. E convida-nos a fazer o mesmo: “Vinde a mim, todos os que estais cansados…”.

Talvez o maior obstáculo seja acharmos que temos de ser fortes o tempo todo. Mas, para Deus, a verdade do coração vale mais do que qualquer aparência. Dizer o que sentimos é um ato de humildade. É reconhecer que precisamos do outro, que não somos autossuficientes.

Aprender a falar do que sentimos é também aprender a confiar. Confiar em quem nos escuta, mas sobretudo confiar que, mesmo quando as palavras falham, Deus compreende o silêncio. Ele lê o que está no mais profundo de nós.

Talvez o primeiro passo seja simples: parar, escutar o próprio coração e dar pequenas palavras ao que lá está. Sem pressa, sem perfeição. Porque, quando começamos a dizer o que sentimos, abrimos caminho para relações mais verdadeiras — com os outros, connosco e com Deus.

Aquilo que sentimos — mesmo quando não sabemos explicar — faz parte de uma busca interior, de um desejo profundo de sentido, de acolhimento e de Deus.


Raquel Assis, in Voz de Lamego, ano 96/20, n.º 4844, de 8 de abril de 2026

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