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História do Mundo Angélico, de Pe. José António Fortea

“Antes de o faraó Sahura ter trasladado a necrópole real para Abusir, […] antes de a areia encontrar repouso no deserto, antes de cair a primeira gota de água naquele que viria a ser o primeiro mar, teve lugar a nossa história, a de nós, os anjos. […] Eu, um anjo, vou contá-la a vós, humanos, ainda que não possais compreender muitas coisas, ainda que tenha de recorrer a comparações humanas para que possais entender o incompreensível.”

É com estas fascinantes palavras que começa a história dos Anjos, uma assombrosa narrativa baseada na Bíblia, em Aristóteles, em S. Tomás de Aquino, nos escritos da Irmã Maria de Jesus de Ágreda e na poderosa capacidade que o autor tem de aprofundar os textos sagrados.

O livro dá-nos a conhecer a criação dos milhões de anjos, a relação dos seres angélicos com Deus e com os seres humanos, a revolta de Lúcifer e de outros anjos, entre outros aspetos maravilhosamente contados e nos quais podemos encontrar muitas situações que também se aplicam a nós.

Usando uma belíssima linguagem poética, que se mantém ao longo do livro, o anjo-narrador começa por contar a criação dos milhões de anjos e a relação que se estabeleceu entre eles e Deus: “Explicou-nos quem era Ele. Revelou-nos quem éramos nós, para que nos tinha criado. Ensinou-nos, instruiu-nos: era um Pai que se fazia nosso Mestre. Mas não falava o tempo todo. […] havia momentos em que nos incitava a falar, em que desejava ouvir-nos.” (texto com supressões).

Apesar desta intimidade, os anjos percebem que não lhes era possível verem a verdadeira face do Criador (o que só acontecerá mais tarde): “o que contemplávamos não era, de facto, Deus em Si mesmo, mas sim algo belíssimo que mais não era do que um véu, o véu que ocultava o fulgor do Mistério”. No entanto, este facto não os impede de irem progredindo no conhecimento de Deus, de modo a ficarem “cada vez mais maravilhados” com Ele. Consequentemente, a vontade de O verem face a face também crescia. Quando Lhe perguntavam a razão pela qual não podiam fazê-lo, Deus “repetia-nos, com ternura, que aquele era o tempo que nos era concedido para forjar os nossos espíritos, para crescer na virtude, para viver na fé, […]. Agora é o momento em que podeis desenvolver o vosso amor na escuridão, a confiança nas minhas palavras. Só agora é possível o esforço. Só agora é possível o sacrifício. Depois… qualquer esforço já não terá mérito”. Mais adiante, o anjo-narrador dirá que “A lição de Deus ficou clara para nós: tudo era uma prova. Devíamos esforçar-nos, pois, terminado o tempo da prova, seríamos admitidos à Sua presença. E cada um receberia segundo o amor e as virtudes que tivesse acumulado nesta fase. […] Se [Deus] queria que o amor existisse fora d’Ele, tinha de criar seres livres. Se queria que existissem seres livres, tinha de os dotar de inteligência e vontade. O amor tinha de ser a nossa resposta. Deus não queria escravos”.

Um dos episódios narrados com pormenor é a revolta dos anjos, que se deveu ao facto de eles não reconhecerem a perfeição de Deus, não confiarem n’Ele e quererem eles próprios ser deuses. Na guerra que teve lugar no céu, destacou-se a fidelidade e o amor a Deus do Arcanjo S. Miguel, que, longe de se deixar influenciar pelas palavras de Lúcifer, proferiu a célebre exclamação “Quem como Deus!”, liderou o combate contra os revoltosos e foi encarregado de expulsar os demónios do mundo angélico. É que S. Miguel “estava revestido de uma fortaleza espiritual impenetrável às seduções que os ímpios lhe lançavam. A sua única arma era a espada da verdade, da verdade sobre Deus. Miguel conhecia a Santíssima Trindade melhor do que os mais inteligentes, porque amava mais. Por isso, todos os que avançaram contra ele tiveram de recuar.”

Também é dado destaque à misericórdia divina. Deus quer, de todo o coração, perdoar aos amotinados e pede-lhes que se arrependam: “Filho meu, volta para Mim. […] O teu pecado não é maior do que a Minha misericórdia.”. Mais adiante, o anjo-narrador dirá que “todos os que quiseram arrepender-se puderam fazê-lo. Aqueles que caíram no inferno foram os que se acorrentaram à sua própria decisão. […] Não é fácil perder Deus para sempre, mas asseguro-vos que os habitantes do inferno estão lá porque conseguiram fazer isso. Só o ódio pode resistir ao amor. Eles conseguiram gerar ódio suficiente para selar hermeticamente os seus corações.”

Por causa desse ódio e da soberba que os caracteriza, não foram capazes de admirar as obras de Deus. Os anjos bons, pelo contrário, assistiram, maravilhados, à criação do mundo material, surpreendendo-se por Deus ter criado “tanta diversidade com apenas cento e dezoito elementos químicos”.

Maravilharam-se também quando Deus lhes mostrou “o que viriam a ser os sete sacramentos”, mesmo tendo havido “um que permaneceu velado sob umas poucas imagens: o sacramento da Eucaristia! Apenas nos foi desvelado que, nesse sacramento, Ele levaria ao extremo o Seu poder para realizar milagres. […] Seria um sacramento dado aos homens, mas que, onde quer que estivesse, estaria rodeado de anjos”.

Os leitores desta obra também ficam maravilhados, por entre outros aspetos, ela nos recordar a infinita misericórdia de Deus, a Sua perfeição e a Sua generosidade ao criar seres dos quais não precisa e a quem ama profundamente, apesar do mau uso que frequentemente fazem da sua liberdade.

Depois de diversos relatos sobre a relação de Deus com os anjos e com os humanos, o livro termina (e da melhor maneira) com a descrição do que espera os justos após o Juízo Final: “Anjos e bem-aventurados gozaremos para sempre, juntos, cantando os louvores do Criador. […] A história não cessará, continuará. Mas será uma história exclusivamente de júbilo. […] se soubésseis até que grau de felicidade podeis alcançar, compreenderíeis o porquê da prova a que estais sujeitos.”

É a história dos anjos, sim, mas tem muito a dizer-nos a nós.


Margarida Dias, in Voz de Lamego, ano 96/34, n.º 4859, de 22 de julho de 2026

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