HomeDestaquesGuerra e migração

Duas realidades da sociedade atual, preocupantes, que minam a civilização e fazem perigar a sadia convivência entre pessoas e povos. A segurança, a paz e a solidariedade são realidades secundarizadas pelo investimento em armas e pelo acelerar de conflitos em muitas partes do mundo. A guerra da Rússia contra a Ucrânia e a persistência da vingança de Israel contra os terroristas do Hamas, são apenas duas das situações entre muitas outras que permitem dizer, com o Papa Francisco, vivemos uma terceira guerra mundial aos pedaços.

A guerra multiplica a pobreza, o número dos refugiados, os migrantes, e tem-se aproximado de nós, não apenas geograficamente, mas com as consequências económicas e sociais que fazem soar os alarmes.

O Papa Francisco, na sua autobiografia, A Esperança, relaciona, de forma clarividente, as duas realidades, a guerra e a migração. Esta é provocada em grande medida por aquela. Os que produzem as armas, para alimentar os conflitos bélicos, são os mesmos que, depois, se recusam a acolher os pobres, os foragidos da guerra e da miséria em que se converteram as suas terras que ora abandonam à procura de sobreviver. “As guerras contemporâneas dizem respeito a algumas regiões do mundo, mas as armas com que se combatem são produzidas noutras regiões, precisamente aquelas que depois recusam e repelem os refugiados que foram gerados por aquelas armas e por aqueles conflitos”.

São Paulo VI, na encíclica Populorum Progressio, ilustrava como o desenvolvimento dos povos seria um serviço fundamental à paz. “Vós todos que ouvistes o apelo dos povos na aflição, vós que vos empenhais em responder-lhes, vós sois os apóstolos do bom e verdadeiro desenvolvimento, que não consiste na riqueza egoísta e amada por si mesma, mas na economia ao serviço do homem, no pão quotidiano distribuído a todos como fonte de fraternidade e sinal da Providência… Porque, se o desenvolvimento é o novo nome da paz, quem não deseja trabalhar para ele com todas as forças?”.

A preocupação expressa por Paulo VI mantém-se na ordem do dia: “Ser libertados da miséria, encontrar com mais segurança a subsistência, a saúde, um emprego estável; ter maior participação nas responsabilidades, excluindo qualquer opressão e situação que ofendam a sua dignidade de homens; ter maior instrução; numa palavra, realizar, conhecer e possuir mais, para ser mais: tal é a aspiração dos homens de hoje, quando um grande número de entre eles está condenado a viver em condições que tornam ilusório este legítimo desejo”.

Mas regressemos às palavras do Papa Francisco: “Emigração e guerra são duas faces da mesma moeda. Como justamente se escreveu, a maior fábrica de migrantes é a guerra. De uma maneira ou de outra, porque também as mudanças climáticas e a pobreza são em grande parte o fruto doente de uma guerra surda que o homem declarou: a uma mais igualitária distribuição dos recursos, à natureza, ao seu próprio planeta. Hoje em dia, o mundo surge-nos cada vez mais elitista e todos os dias mais cruel com os excluídos e os rejeitados. Os países em desenvolvimento continuam a ser depauperados dos seus melhores recursos naturais e humanos em benefício de uns poucos mercados privilegiados”.

A migração é uma arma de arremesso, nas campanhas eleitorais e na disputa acalorada de votos. Os países que mais produzem armamento são os que constroem muros para repelir os migrantes que ajudaram a produzir e multiplicar. Não está em causa a necessidade de regras, mas importa apostar mais na paz, no desenvolvimento dos povos, na criação de riqueza e na justa distribuição da mesma, investindo na saúde e educação, na cultura e na inclusão das pessoas mais frágeis, criando condições de segurança, liberdade e acesso a empregos justamente remunerados, nos países de onde existem mais transfúgios. Quem foge da guerra, foge da miséria e procura lugares em que haja pão e segurança. Se encontrarem condições nas suas terras, não será tão frequente abandonarem os seus países e as suas famílias.


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 95/30, n.º 4806, de 11 de junho 2025

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