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Francisco – Sinodalidade – Leão XIV

Passou pouquinho tempo desde que Leão XIV foi eleito Papa, a 8 de maio. Por certo, continuamos a olhar para o novo Papa fazendo comparações com o seu predecessor, o Papa Francisco. Serão inevitáveis as diferenças, mesmo que alguns quisessem vê-los como uma cópia um do outro, haverá semelhanças, mesmo que alguns quisessem que fossem bem distintos, mas haverá inevitavelmente pontos de contacto, pois o Evangelho é o mesmo e a missão é idêntica. Mas, como em todas as missões, a pessoa que a assume enriquece-a com a suas qualidades, com a sua forma de ser e de agir. Assim será com o Papa Leão XIV.

Há temas recorrentes e que não se esgotam num determinado hiato de tempo, mas desenvolvem-se, amadurecem, configuram-se, com o mesmo propósito de viver, traduzir e concretizar o Evangelho de Jesus Cristo, edificando a fraternidade por Ele iniciada, no contacto, interação e diálogo com cada época. Se os intervenientes são outros, a sua vivência terá características específicas.

No ano de 2021, o Papa Francisco convocou a Igreja a refletir sobre a sua identidade, sobre a sinodalidade, com uma dupla Assembleia Sinodal, em outubro, nos anos de 2023 e 2024, no Vaticano. O processo sinodal operacionalizou-se nos países, por conferências episcopais, nas dioceses, nas paróquias, movimentos eclesiais, em pequenos grupos. Foram auscultadas milhares de pessoas, para que em duas assembleias chegasse o sentir da Igreja em diversas latitudes e com diferentes sensibilidades. Tal caminho, em conjunto e comunhão, continua a ser um desafio, continuando o grupo de acompanhamento sinodal a estar em exercício.

Na nota de acompanhamento, assinada em 24 de novembro de 2024, o Papa Francisco sancionava e assumia o Documento Final do Sínodo, sublinhando que “agora o caminho continua nas Igrejas locais e nos seus agrupamentos…Naturalmente, na Igreja, é necessária uma unidade de doutrina e de práxis, mas isso não impede que existam maneiras diferentes de interpretar alguns aspetos da doutrina ou algumas consequências que decorrem dela”.

Recuperemos as primeiras palavras de Leão XIV: “Deus nos ama, Deus vos ama a todos, e o mal não prevalecerá! Estamos todos nas mãos de Deus. Portanto, sem medo, unidos de mãos dadas com Deus e uns com os outros, sigamos em frente! Somos discípulos de Cristo. Cristo vai à nossa frente. O mundo precisa da sua luz. A humanidade precisa d’Ele como ponte para poder ser alcançada por Deus e pelo seu amor. Ajudai-nos também vós e, depois, ajudai-vos uns aos outros a construir pontes, com o diálogo, o encontro, unindo-nos todos para sermos um só povo sempre em paz”. Diálogo, encontro, amor e paz, juntos a construir pontes.

No Jubileu das Famílias, Crianças, Avós e Idosos, o Papa Leão XIV, na sua homilia, e partindo do Evangelho de são João (Jo 17, 20-26), fez-nos regressar ao fundamento da nossa fé, da Igreja, da fraternidade: “Cristo pede, com efeito, que todos sejamos ‘um só’ (v. 21)… O Senhor não quer que nos juntemos numa massa indistinta, como um bloco sem nome, apenas com o fim de estarmos unidos, mas deseja que sejamos um: ‘como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti; para que assim eles estejam em Nós’ (v. 21). A unidade pela qual Jesus reza é, portanto, uma comunhão fundada no mesmo amor com que Deus ama, do qual provêm a vida e a salvação”.

Leão é claro no repto que nos lança: “Sejamos uma Igreja sinodal, uma Igreja em caminho, uma Igreja que procura sempre a paz, que procura sempre a caridade, que procura sempre estar próxima, sobretudo dos que mais sofrem”.

O lema episcopal e agora papal, vai no mesmo sentido: “In Illo uno unum”. São palavras retiradas de um sermão de santo Agostinho sobre o Salmo 127, concluindo o Leão XIV que “embora nós cristãos sejamos muitos, no único Cristo somos um… Este é o caminho a percorrer juntos – entre nós… Este é o espírito missionário que nos deve animar, sem nos fecharmos no nosso pequeno grupo nem nos sentirmos superiores ao mundo; somos chamados a oferecer a todos o amor de Deus, para que se realize aquela unidade que não anula as diferenças, mas valoriza a história pessoal de cada um e a cultura social e religiosa de cada povo”.


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 95/43, n.º 4820, de 24 de setembro de 2025

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