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Francisco, o homem que pediu terra

Morreu o Papa. E não, o mundo não parou.

Não, não foi apenas um homem que partiu, foi uma tentativa, creio que, quase desesperada, de diálogo com o abismo. Os sinos dobraram, mas o ruído do mundo abafou-lhes o lamento: a bolsa abriu, o trânsito engarrafou-se, e as redes sociais continuaram a sua coreografia frenética de banalidades. Os jornais não tinham mãos a medir com a notícia. Vivemos numa era de “likes” sem luto. Onde a tristeza só é permitida se for fotogénica.

O Papa Francisco foi, talvez, o último pastor que tentou conduzir um rebanho que já se alimenta de algoritmos e caminha com olhos vidrados nas luzes dos ecrãs. Não prometeu céu, nem ameaçou inferno. Ofereceu apenas uma fé descalça, feita de humanidade, inquietação e ternura.

Um velho argentino, de passos curtos, pulmões cansados e alma inquieta, a arrastar pela lama dos nossos dias uma cruz de palavras simples: compaixão, justiça, misericórdia… enquanto o mundo fazia scroll, como quem ouve um violinista em pleno concerto de buzinas. Foi um pontífice em contramão de uma humanidade que perdeu o pulso da esperança e tenta compensar com likes e sarcasmo.

Este homem de gestos lentos e de palavras que doíam por serem verdadeiras, não era apenas um representante de algo superior. Era um teimoso. Um teimoso com fé. Um velho cansado, de joelhos feridos pela oração e pela política, a segredar ternura num tempo que só ouve gritos.

E isso, talvez, tenha sido o seu maior milagre: tentar amar uma humanidade que já se esqueceu de se perdoar a si mesma.

No fundo, tentou ser farol numa era de lanternas LED: úteis, descartáveis, automáticas. Falava baixo, como quem respeita o silêncio alheio, mas o ignoravam; o mundo ouve gritos, não murmúrios. E agora que a sua luz se apagou, o escuro não causa espanto, porque vivemos na era dos falsos profetas, dos gurus com cursos online e milagres em três prestações.

Independentemente do meu combate com a ideia de “Fé”, há uma imagem dele que me ficou gravada: sozinho na Praça de São Pedro, em plena pandemia, num dia de chuva. Não estava ali a Igreja, nem o Vaticano, nem os séculos de dogma. Estava ali um homem. Um homem só, que se levantou entre as colunas do medo e gritou em silêncio por empatia. Como um pastor que já não vê o rebanho, mas ainda acredita que vale a pena chamá-lo.

Num mundo de megafones, perdemos alguém que ousava sussurrar e que, num tempo de dedos em riste, ainda juntava as mãos.

Agora, morto, pediu terra. Não relicários, não túmulos de mármore, nem capelas douradas. Terra, somente… como quem devolve ao pó a fé de que somos feitos. Que forma bonita de cair, como quem diz “que me cubram de humanidade, não de glória!”.

No resto de tudo, o Papa Francisco não foi mártir, santo ou profeta.

Foi pior: foi lúcido.

E isso, neste mundo, é imperdoável.


Ricardo da Fonseca, in Voz de Lamego, ano 95/23, n.º 4800, de 23 de abril 2025

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