A ecologia será um dos temas fundamentais do pontificado de Leão XIV como o foi do Papa Francisco. A proteção desta casa comum, casa que é de todos, terá de ser um compromisso, não apenas do Papa, mas de cada cristão, de cada cidadão. É uma casa que recebemos, não que construímos ou comprámos. Recebemo-la, não a título definitivo, não apenas para nós, e não a levaremos connosco. Somos administradores e não donos. Se não temos o “título definitivo” da propriedade, não poderemos fazer o que nos dá na real gana, cabe-nos gerir, administrar, procurar, se não mais, pelo menos, mantê-la na sua integralidade. Se acrescentarmos valor, melhor. Quando ocupamos uma casa que não é nossa, por pouco tempo que seja, fazemos por criar um ambiente acolhedor, confortável, agradável para nós e para quem recebemos. Quando entregamos a casa, deixamo-la arrumada. Se fizermos melhorias, também beneficiaremos delas. Assim em casa, assim no mundo.
Na sua mensagem para o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, 1 de setembro de 2025, o santo Padre parte da temática previamente escolhida pelo Seu Predecessor, o papa Francisco: Sementes de Paz e Esperança. De referir que passaram dez anos da convocação deste dia comemorativo e da publicação da Encíclica Laudato Si’ e, por outro lado, continuamos em pleno Jubileu sob o tema “Peregrinos da Esperança”.
“Em Cristo, somos sementes. Não só isso, mas ‘sementes de Paz e Esperança’. Como diz o profeta Isaías, o Espírito de Deus é capaz de transformar o deserto árido e ressequido num jardim, num lugar de repouso e serenidade: ‘Uma vez mais virá sobre nós o espírito do alto. Então o deserto se converterá em pomar, e o pomar será como uma floresta. Na terra, agora deserta, habitará o direito, e a justiça no pomar. A paz será obra da justiça, e o fruto da justiça será a tranquilidade e a segurança para sempre. O povo de Deus repousará numa mansão serena, em moradas seguras e em lugares tranquilos’ (Is 32, 15-18)”.
Estas palavras, propõe Leão XIV, servirão também de tónica para a iniciativa ecuménica “Tempo da Criação” que decorre entre o primeiro de setembro e o dia 4 de outubro, memória litúrgica de são Francisco de Assis, o padroeiro da ecologia.
Por estes dias, a 5 de setembro, o papa inaugurou o Borgo [bairro] Laudato si’, na residência pontifícia de Castel Gandolfo, projeto com 35 hectares de jardins e 20 hectares de terras agrícolas, em Castel Gandolfo. Desta forma, Leão XIV sublinha a responsabilidade de cada pessoa na proteção do ambiente, neste projeto pensado pelo Papa Francisco: “Jesus sublinha o lugar especial reservado, no ato criativo, ao ser humano: a criatura mais bela, feita à imagem e semelhança de Deus. Mas a esse privilégio está associada uma grande responsabilidade: a de cuidar de todas as outras criaturas, respeitando o desígnio do Criador”. Regressemos à Mensagem de Leão XIV para Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação: “Parece ainda haver uma falta de consciência de que a destruição da natureza não afeta todos da mesma forma: espezinhar a justiça e a paz significa atingir principalmente os mais pobres, os marginalizados, os excluídos. A este respeito, o sofrimento das comunidades indígenas é emblemático. E não basta: a própria natureza torna-se, por vezes, um instrumento de troca, uma mercadoria a negociar para obter ganhos económicos ou políticos. Nestas dinâmicas, a criação transforma-se num campo de batalha pelo controlo dos recursos vitais, como testemunham as zonas agrícolas e as florestas que se tornaram perigosas por causa das minas, a política da ‘terra queimada’, os conflitos que eclodem em torno das fontes de água, a distribuição desigual das matérias-primas, penalizando as populações mais fracas e minando a própria estabilidade social”. E com o Papa concluímos: “Trabalhando com dedicação e ternura, muitas sementes de justiça podem germinar, contribuindo para a paz e a esperança. Por vezes, são precisos anos para que a árvore dê os primeiros frutos, anos que envolvem todo um ecossistema na continuidade, na fidelidade, na colaboração e no amor, sobretudo se este amor se tornar um espelho do Amor oblativo de Deus”.
Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 95/41, n.º 4818, de 10 de setembro de 2025



