É incontornável, por estes dias e por muito tempo, não se falar do Papa Francisco, da aragem que trouxe à Igreja e como tornou a Igreja mais próxima da sociedade. Num mundo acelerado, em mudança constante, de modas que rapidamente deixam de o ser, de indiferença e fastio a mensagens mais profundas, o Papa Francisco fez-se ouvir, chegando a muitos públicos, a admiradores e críticos, mas não indiferentes. Contagiou pessoas de todos os estratos sociais e de todas as idades. Os jovens não ficaram indiferentes e manifestaram-lhe, em diferentes ocasiões, o seu carinho e admiração. “Esta é a juventude do Papa”!
Nestas primeiras horas, depois do anúncio da sua morte, muitos procuram expressar o seu ministério num título, uma característica. O Papa do sorriso, por exemplo! Ainda que esse título esteja agrafado ao Papa João Paulo I. Mas havemos de encontrar muitos mais: o Papa da Misericórdia, o Papa da Esperança, o Papa dos Pobres, o Papa das periferias, o Papa “todos, todos, todos”! Os pobres foram a primeira preocupação, tendo sido a razão da do nome, relembrando são Francisco de Assis e o apelo que lhe foi feito para se lembrar dos pobres.
A misericórdia é outra marca profunda neste pontificado. No dia 21 de setembro de 1953, explica o próprio acerca da sua vocação, segunda-feira, dia de festa, início e Dia da Primavera, mas também Dia do estudante, o encontro foi marcado. Um dia tinha que fazer um recado a uma amiga da mãe, deparou-se com a porta da Igreja de são José aberta e sentiu o impulso para entrar e entrou também no confessionário. A partir daí a sua vida será diferente. O Senhor antecipa-nos, “primerea”, como o ramo da amendoeira, como o profeta o define, aquele que na primavera primeiro floresce (Jer 1, 11). “Pensas que és tu que O procuras, mas Ele já te encontrou. Pecas, e Ele está à tua espera para te perdoar”. Nos dias, semanas e meses seguintes visita o mesmo sacerdote e a vocação vai amadurecendo. O sacerdote morreu e ele depara-se com a misericórdia de Deus. Era o dia de são Mateus, acerca de quem diz o Venerável Beda, ao falar da conversão do futuro apóstolo, então publicano, que Jesus olhou para ele, “miserando atque elegendo”, “misericordiando e escolhendo”. Olhou para ele com misericórdia e elegeu-o. Será o seu lema episcopal e papal. A misericórdia estará permanentemente no pensamento e nas palavras do Papa Francisco, ao ponto de convocar o Jubileu da Misericórdia, logo no início do pontificado. Um dos livros que publicou tem o título de “O Nome de Deus é Misericórdia”.
Na sua autobiografia, bem recente, a “Esperança” é a palavra que o define, tal como o Jubileu 2025, cujo lema é “Peregrinos da Esperança”. A abrir a sua autobiografia fala neste caminho marcado pela esperança. “O livro da minha vida é o relato de um caminho de esperança que não posso imaginar separado do da minha família, da minha gente, de todo o povo de Deus. É também, em cada página, em cada passo, o livro de quem caminhou junto de mim, de quem nos precedeu, de quem nos seguirá.
Uma autobiografia não é a nossa literatura privada, é mais o nosso saco de viagem. E a memória não é apenas o que recordamos, mas o que nos circunda. Não fala unicamente do que foi, mas do que será. A memória é um presente que nunca acaba de passar, diz um poeta mexicano.
Parece que foi ontem, mas afinal é amanhã.
Costuma dizer-se «aguarda e espera» – de tal modo que no vocabulário espanhol a palavra esperar tanto significa esperar como aguardar —, mas a esperança é sobretudo a virtude do movimento e o motor da mudança: é a tensão que une memória e utopia para construir realmente os sonhos que nos aguardam. E se um sonho enfraquece, é necessário voltar a sonhá-lo, sob novas formas, consultando com esperança as brasas da memória… Nós, cristãos, devemos saber que a esperança não ilude nem desilude: tudo nasce para florir numa eterna primavera”.
Esta edição, para lá de outros temas tratados, destaca, como expectável a figura do Papa Francisco, em textos e fotos, na certeza de que a memória é interpelação a acolher com a alegria a manhã de Páscoa e a irradiar a bondade e a esperança que nos une, como irmãos, à Santíssima Trindade.
Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 95/23, n.º 4800, de 23 de abril 2025



