O verão, para as nossas terras, cidades, vilas e aldeias, sobretudo do nosso norte interior, é preenchido de festas. Os emigrantes regressam por uns dias, por vezes apenas o fim de semana da festa… Reencontros para matar saudades, usufruir dos familiares e amigos que ficaram, recordar e viver tradições, confraternizar. Falar de emigrantes é falar daqueles que foram para longe, para países estrangeiros, mas também para outras paragens portuguesas, para o norte litoral, para a capital, para o sul. E se estes últimos vêm em outras ocasiões, durante o ano, também para eles é a melhor altura para encontrar os que dispersaram para outras terras, nacionais ou estrangeiras. Confluem todos para a terra que os viu nascer e, alguns deles, os viu crescer; outros são já descendentes que aprenderam a visitar a terra e os costumes dos seus progenitores e que lhes agrada esta quentura e proximidade tão nossa!
A densidade das festas enche de vida as nossas aldeias, cada vez mais desertificadas, com a motivação do padroeiro da paróquia ou padroeiro de uma das povoações que compõem a referida paróquia. Na zona onde habito, santa Bárbara ocupa um lugar muito especial, estando no cartaz de muitas festas. Ou como referência única ou a “patrocinar” o segundo dia de festa religiosa. Mas creio que não supera a invocação de Nossa Senhora, com as suas diferentes propriedades ou títulos: da Saúde, dos Remédios, do Bom Despacho, do Bom Juízo, da Assunção, da Paz, das Graças, do Rosário, das Neves.
O mês de agosto é recentra-se e expressa-se em absoluto no dia 15, feriado e dia santo, festa das 7 Senhoras, ou invocação de Nossa Senhora com sete nomes diferentes. Maria parece ocupar um lugar privilegiado na geografia das festas de verão. Sabemos como, muitas vezes, o nome de Nossa Senhora ou o de outro santo, é apenas o ponto de partida para estes encontros festivos. Mas, humana e socialmente falando, não deixa de ser uma motivação importante, na medida em que estes momentos nos distendem de outras preocupações, fomentando o encontro, facilitando a confraternização, criando, solidificando e reconstruindo laços de amizade e laços familiares. A parte religiosa não deixa de marcar presença e, quase sem se dar conta, de forma espontânea, atualiza recordações de infância, aviva memórias e, deixamos isso a Deus, recupera a fé que se foi perdendo, ou a sua expressão na piedade popular.
Mas, sem perder o fio à meada, volvamos o olhar, a atenção e o coração para Maria. Por ocasião da Anunciação! Surpreendida pelo Anjo, Maria há de responder com a Sua vida toda: “Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”.
Há traduções que preferem usar o termo “serva do Senhor”, parece ser o mais usual, no entanto, há quem opte pela tradução “a escrava do Senhor”. Escrava diz muito mais da identidade de Nossa Senhora. No livro “Perguntas de Deus, perguntas a Deus”, os seus autores, Lukasz e Timothy, recorrendo à escrita em forma de diálogo, aprofundam esta opção. “Enquanto ‘servo’ pode referir simplesmente um trabalho ou uma função transitória, ser ‘doulus’, ‘escravo’, é uma questão de identidade e de pertença… Um escravo de confiança da família real podia ser tão importante quanto um membro dessa família e deter um poder significativo na corte. ‘A escrava do Senhor’ – isto é, de Deus – é tanto uma expressão da própria dignidade como da própria humildade”. Na resposta a Lukasz, Timothy corrobora a ideia: “Se Maria é ‘a escrava’ de Deus, isso significa que ela não pode ser escrava de mais ninguém. É uma declaração da sua libertação de todo o domínio humano”.
Esta foi a opção de Maria, escrava de um só Senhor. Foi também a vida de Jesus: fazer a vontade do Pai! Apenas isso. Absolutamente mais nada! E nós, somos servos ou escravos? De quê ou de quem?
Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 94/37, n.º 4765, de 7 de agosto de 2024.




