Portugal participou, uma vez mais, no Festival da Eurovisão, com a canção “Rosa” do grupo “Bandidos do Cante”. Foi um festival que já fez parar o país e para nós portugueses foi quase sempre uma desilusão, por mais que as nossas músicas nos parecessem as melhores do mundo.
Os gostos não se discutem, mas em meu entender, de facto, temos levado ao festival belas canções e temos levado, com raras exceções, a nossa língua. Só por isso, já é de louvar a participação, quando alguns dos países, também já tivemos essa tentação, optam por escrever e cantar, não na sua língua materna, mas em Inglês. Diga-se que algumas letras são tão pobrezinhas que em qualquer língua ficariam bem, pois o barulho e o instrumental superam o texto, escondendo-o ou secundarizando-o.
O Eurofestival alargou-se a leste e as votações desdobraram-se, dispersando-se ou fixando-se em músicas de países mais populosos ou com mais influência política, cultural, social. Contava a votação dos júris escolhidos em cada país… a Espanha dava-nos (quase) sempre uma boa pontuação… e Portugal (quase) sempre se esquecia do país irmão. Mas dizem por aí que há muita política nas canções favoritas e vencedoras. A votação do público baralha um pouco as contas dos júris de cada país, permitindo inverter as classificações finais. Este ano não conseguimos avançar para a final, mas, goste-se mais ou menos, levamos do que é nosso, a nossa língua, o nosso cante, parte importante da nossa cultura.
A dimensão política foi vincada, mais uma vez, com a questão da Palestina. Obviamente que na música como no desporto, as manifestações políticas, o cancelamento de participações, a proibição não se deveria colocar. Mas também aqui se vê e se manifesta o poderio de alguns e a berraria de outros tantos. A questão da Palestina não é de fácil leitura, ainda que quem pague a maior fatura sejam os que nada têm a ver com a guerra, que não a querem e a dispensariam. Independentemente das interpretações, colocar-me-ia ao lado dos inocentes, de um e outro lado, mas não ficaria nem do lado de Israel nem do lado da Palestina, melhor, não ficaria do lado das lideranças de um e do outro lado, pois a perspetiva é igual: agora mato eu, a seguir matas tu, e logo que as circunstâncias mudem, os que matam e os que morrem mudam de lado, mas a violência e o terrorismo serão idênticos.
Voltemos à nossa canção, pois é o nosso ponto de partida: “No silêncio do luar / Sopra o vento devagar / Traz o cheiro das roseiras / E o teu nome a sussurrar / Meu amor se hoje for / À noitinha ao meu jardim / Por lá encontrarei rosas / Fazem-me lembrar de ti / … Sobrou pouco ou quase nada / Só as rosas que plantei / E o jardim virou saudade / És a rosa mais bonita / Que brotou ao sul do Tejo”. Em 2018, Cláudia Pascoal trazia ao Festival outras flores: “São as flores, o meu lugar / Agora que não estás rego eu o teu jardim”. Também existem “Jardins proibidos”! Mas mais do que a rosa ou as flores do jardim, o que conta são as pessoas que amamos e que cuidam de nós, que nos amam e de quem cuidamos. O rosa torna-se a mais bonita pelo tempo que ocupou a minha atenção e preocupação. Como não lembrar o Principezinho na sua fuga que é também a sua busca?! Sai pelo cansaço, foge da rotina e dos pedidos constantes da sua rosa e no final regressa porque descobriu o quanto a sua rosa o faz sentir-se útil, vivo, prestável. Assim a vida! Esta vale, não tanto pela duração, mas pela intensidade, melhor, pelo amor, pelo sabor que colocamos na nossa relação com os outros. Há quem consiga dar a vida! Jesus. Talvez não nos seja pedido o mesmo. Ou talvez só no dar a vida descubramos a importância do que somos e do que valemos. Valemos porque somos amados. Deus criou-nos por amor. Valemos no que nos damos aos outros! Talvez valha a pena pensar nisto!
Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/26, n.º 4851, de 20 de maio de 2026



