Em tempos de grande desafio e mais exigentes, António Carreira vai continuar a liderar a maior instituição social do concelho de Lamego, Santa Casa da Misericórdia de Lamego, nos próximos quatro anos. Defende que as misericórdias desempenham “o principal papel no setor social” e que a sua essência e fundamento são o “próximo”. Para o futuro, que continuar a ter “as contas equilibradas”
Voz de Lamego (VL) – Quais foram as principais razões que o levaram a candidatar-se a um segundo mandato como Provedor?
São várias as razões da candidatura a um segundo mandato. Por um lado, sentir que a equipa que estava em funções, composta por homens e mulheres de princípios e valores e com provas dadas nas suas atividades profissionais, mantinha e mantém o mesmo entusiamo por continuar esta missão de serviço gratuito aos outros. Depois, o facto de ter constatado que os colaboradores da instituição desejavam uma continuidade reconhecendo que o trabalho feito deveria manter-se. Por fim, por sentir que as minhas capacidades ainda me permitem um trabalho por mais quatro anos. É certo que poderia deixar-me estar no conforto do lar e no descanso que poderia ter, mas o meu empenho é no cumprimento de um dever moral. Esta decisão de continuar tem que ver com esse sentido que procuro para a minha vida, porque tenho uma visão humanista da sociedade. É, por isso, no cumprimento de um dever para com a comunidade a que pertenço que aceitei o desafio para este novo mandato para dar continuidade a um serviço que se iniciou há mais de 500 anos.
VL – Antes de ser Provedor também fez parte da Mesa Administrativa durante sete anos. A Misericórdia de Lamego é uma casa que conhece bem?
Sim, posso afirmar eu conheço bem a Santa Casa da Misericórdia, bem como todos aqueles que se relacionam com a instituição. Passo aqui muito do tempo que retiro à minha vida profissional e à família. Conheço todas as valências, os seus colaboradores, as pessoas a quem servimos, o património, os compromissos, as necessidades, os recursos, bem como os projetos.
VL – Qual o momento mais difícil que viveu nestas funções?
Não houve propriamente um momento mais difícil. Todos os dias são desafios. A incerteza no mundo, a pandemia, a guerra na Ucrânia, a crise económica mundial e estes tempos políticos que vivemos no mundo vão ser, seguramente, uma grande preocupação de todos e para todos. Não quero ser pessimista, mas os tempos mais difíceis ainda estão por vir. Bastará atentar nas guerras comerciais que se avizinham e nas consequências catastróficas que daí poderão advir para a economia mundial e para o nosso país.
VL – Quais considera serem os grandes desafios do mandato que agora inicia e o que vai fazer para superá-los?
Gostaria de deixar neste mandato uma solução concreta para o edifício e zona envolvente do que foi o Hospital de Lamego. Trata-se de uma construção do início do século XIX que esteve arrendada ao Estado até 2013 e que, a partir daí, deixou de ter utilização.
Para além disso, temos outros projetos, nomeadamente com a renovação da cozinha da Quinta da Poço, a renovação da frota automóvel, a desmaterialização dos serviços, a conservação do património, nunca nos desviando do que para nós é essencial que é a consolidação da situação financeira da instituição.
Mas, para nós, seria importante ter uma solução em execução para as instalações do antigo Hospital.
VL – As instalações do antigo Hospital de Lamego constituem uma herança pesada desta Santa Casa. Estão desativadas e, aos poucos, estão em processo lento de degradação. O que acha que pode ser feito neste local?
A sua degradação é evidente e, neste momento, resta-nos zelar pela sua conservação a fim de evitar riscos para terceiros, quer no seu património quer em danos causados às pessoas. Gostaríamos que o edifício se viesse a tornar um equipamento relacionado com a saúde ou com o bem-estar das populações. Neste momento, temos uma clínica de hemodiálise que não está aberta ao público, porque o Estado não estabeleceu convenção com o privado que aí investiu. Estamos confiantes que, tal venha, ainda, a acontecer. Nesse espaço, vai também ser instalado o Parque da Saúde de Lamego. Por isso, acreditamos que o edifício das antigas instalações pode ser apetecível para outros investimentos nessa área e o Parque da Saúde seja uma âncora com capacidade atrativa.
VL – Uma das principais preocupações que expressa nas suas intervenções como Provedor é a necessidade da Misericórdia ter contas equilibradas. Porquê?
Não há vida sem misericórdia diz o cardeal Tolentino de Mendonça, mas também não é possível haver misericórdia sem recursos. A Santa Casa tem as suas contas equilibradas. Felizmente, a execução orçamental tem sido melhor do que a previsão feita nos orçamentos que são sempre prudentes, mas rigorosos. Não se deve nada ninguém e não há passivos bancários.
É bom saber que a Santa Casa, em termos de recursos, tem as receitas dos serviços que presta, as comparticipações da segurança social e os rendimentos das propriedades rústicas e urbanas que benfeitores legaram à instituição e de outros que a Santa Casa mandou construir. Não aufere qualquer receita de jogos, como muitos pensam.
VL – A atualização dos salários de todos os trabalhadores também está no topo das suas preocupações. As subidas que se têm verificado não põem em causa o equilíbrio financeiro?
Não está em causa o equilíbrio financeiro. Infelizmente, os salários da Santa Casa não são elevados e gostaria que os nossos colaboradores fossem mais bem remunerados. Posso afirmar que os vencimentos foram todos atualizados, mesmo não tendo sido publicado diploma que o obrigasse a tal. Entendemos que sempre que há folga orçamental isso deve ser revertido a favor dos trabalhadores. Felizmente não há salários em atraso e os colaboradores da instituição sempre receberam e recebem o seu salário a tempo e horas.
VL – Há valências que todos os anos apresentam défices crónicos, como o Centro de Acolhimento Temporário (CAT). Pensa encerrá-lo ou transferir esta responsabilidade para o Estado?
Poderia dizer que uma gestão espartana e objetiva deveria levar-nos a essa decisão. Mas não o iremos fazer. A Santa Casa não é uma empresa no sentido da “maximização do lucro”, como qualquer unidade produtiva. Entendemos que as receitas dos bens que benfeitores legaram à Santa Casa devem servir para fazer face a despesas como a Casa de Acolhimento para crianças e jovens institucionalizados, porque, desse modo, estamos seguramente a cumprir o que foi a vontade dos seus benfeitores, ou seja, a pôr na prática as Obras de Misericórdia.
VL – O Lar de Idosos de Arneirós (ERPI) é talvez a resposta social mais conhecida da Santa Casa. Está satisfeito com a qualidade deste equipamento e com o serviço prestado?
Nunca devemos considerar que estamos satisfeitos, porque isso pode levar-nos a pensar que mais nada é preciso fazer. A construção e a reconstrução da ERPI foi levada a cabo pelas anteriores mesas administrativas, e podemos afirmar com orgulho que se trata de uma resposta com serviços de qualidade e de excelência, com boas instalações, onde procuramos tratar todos com dignidade, tendo um serviço de enfermagem e clínico com qualidade, colaboradores dedicados e um corpo técnico e dirigente empenhado. Mas queremos melhorar para que a nossa ERPI seja uma referência na região e um modelo, porque o que nos interessa são as pessoas que aí estão. É por causa delas que trabalhamos.
VL – Quando tomou posse no segundo mandato, afirmou que pretende reforçar a vertente cultural da Santa Casa. Como poderá isto ser alcançado?
Queremos integrar a Igreja das Chagas num circuito turístico de índole religiosa. Abrir as portas desta bela Igreja às pessoas, a todas as pessoas. Desejamos também abrir o nosso museu para que o espólio valioso da Santa Casa também seja do conhecimento de todos. Iremos, por isso, apetrechar a instituição com recursos humanos adequados a esse fim. Acreditamos que os recursos de que dispomos nos vão permitir concretizar este sonho.
VL – No ano passado, foram admitidos mais ou menos 80 novos Irmãos. Este caminho é para continuar e o qual o significado deste crescimento?
Queremos continuar a abrir as portas da instituição a todos os cidadãos, porque embora seja uma associação religiosa de cariz católica, todos são bem-vindos. O que está em causa é o caminho que todos percorremos com a finalidade de proporcionarmos ao outro, sobretudo ao desprotegido, melhores condições de vida e de bem-estar. Este crescimento deve-se ao facto de as pessoas olharem para a Santa Casa como, algo de muito concreto, que está próxima dos cidadãos e não como uma entidade abstrata e longínqua das pessoas. Para nós, todos contam e sempre que é admitido um novo Irmão, encontramos mais um apoio.
VL – A Misericórdia de Lamego foi criada há mais de 500 anos, no tempo da Rainha D. Leonor, para auxiliar os mais necessitados. Em 2025, considera que este tipo de instituições ainda faz sentido?
Claro que fazem sentido. A sua essência e fundamento são o “próximo”. Nos tempos que correm e que todos nós vivemos, assistimos a um acréscimo das necessidades do outro, num mundo cada vez mais desigual e perturbador. O sentido das misericórdias é bem patente no exemplo de Lamego. A Santa Casa relaciona-se diariamente com cerca de 400 pessoas (utentes) e tem ao seu serviço cerca de 125 trabalhadores, o que a torna numa “empresa” de média dimensão no panorama concelhio.
As misericórdias têm o principal papel no setor social, revelando-se como o motor da satisfação das necessidades coletivas, no âmbito da Segurança Social. O Estado, jamais cumpriria a sua função constitucional se não existissem as misericórdias.
VL – Quer deixar uma mensagem final aos Irmãos, utentes e colaboradores da Santa Casa da Misericórdia de Lamego?
Gostaria que todos os colaborares sentissem de forma evidente que “trabalhar nesta instituição é muito mais do que ter uma profissão, é sobretudo uma missão”, sabendo que os nossos utentes podem confiar na qualidade e excelência dos serviços que prestamos. Por fim, deixo uma palavra a todos os irmãos da Santa Casa para sentirem o quão gratificante é pertencer a esta instituição, lançando-lhes o desafio de que todos temos o “dever de continuar o trabalho que a História de 500 anos transporta”.
in Voz de Lamego, ano 95/12, n.º 4789, de 5 de fevereiro de 2025




