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Entre dois silêncios profundos

Nem todas as promessas são exequíveis. Na semana passada trouxe aqui a figura de Judas, não um Judas, mas logo três! Esta semana estava prometido falar do terceiro Judas, o irmão do Senhor, irmão de Tiago, mas as circunstâncias levam-me por outro caminho e a fazer-vos outra proposta de reflexão. Havemos de regressar à carta de são Judas. Por ora vamos até Lisboa e até Madrid, capitais de Portugal e de Espanha! Que ligações poderemos descortinar além de serem duas cidades cosmopolitas e capitais de países? Um silêncio profundo!

Como é que o silêncio poderá ser uma ligação entre as duas cidades? E como é que o silêncio preencherá a reflexão que vos proponho? As duas cidades são agitadas, com muita vida e muito movimento, com muito ruído, muita noite e muita música. Encontrar tempo e espaço para o silêncio não é fácil. Melhor, a probabilidade de um milhão de pessoas fazer silêncio é diminuta. Mas aconteceu.

Na Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa, em 2023, na Vigília de Oração, diante do Santíssimo Sacramento, na presença do Papa Francisco, os milhares de jovens, entre um milhão e um milhão e meio, fez-se um silêncio profundo, prevalecendo o ambiente de oração, de reflexão, de adoração. Quem pôde, ajoelhou no chão do recinto. Muitos foram os momentos marcantes, o encontro com o Papa, as caminhadas, o cansaço, o ambiente de festa, a música, as palavras do Papa Francisco, a atuação de cantores de renome, a via-sacra, mas aquele silêncio falou profundamente em muitos. Sem palavras, apenas a sagrada custódia, com a hóstia consagrada, visível nos grandes ecrãs no Parque Tejo. Encontro íntimo com o Senhor Jesus! Não podemos ler o coração de cada um, mas o testemunho daquele silêncio foi eloquente para quem estava no local como para quem acompanhou pela televisão!

Na Viagem Apostólica do Papa Leão XIV a Espanha, de 6 a 12 de junho, logo na primeira noite, na Vigília de Oração com os jovens, o silêncio voltou a fazer-se ouvir na presença do Santíssimo Sacramento. Como na vida, as palavras são importantes, mas há mais linguagem para lá da articulação das letras, o olhar, o silêncio, a presença, os gestos de carinho, um beijo, um abraço! A Praça de Lima fez eco do silêncio, em preito de oração e adoração de Jesus Eucaristia. Quem diria que jovens cheios de vida e com os ouvidos inundados de ruído pudessem calar-se e deixar que o coração falasse?

A Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Jesus Cristo, em Espanha, como em outros países, passou para Domingo. Na Praça Cibeles, o Papa presidiu à Eucaristia e à Procissão do Corpus Christi, dando ainda mais corpo à referida Vigília de Oração. “Com o coração cheio de alegria, no início desta viagem a Espanha, presido a esta celebração no dia da Solenidade de Corpus Christi. Estamos reunidos em torno à Eucaristia, o dom da presença viva de Cristo no meio de nós. Ele, que quis oferecer-nos a sua vida para nos fazer entrar na comunhão do Pai e tornar-nos seus filhos, está aqui, como Pão vivo descido do céu, que nos alimenta com a própria vida de Deus, com um amor mais forte que a morte”. E logo Leão XIV faz ver como a Eucaristia nos encaminha para os outros: “Assim, se na celebração eucarística Cristo se entrega como alimento, a procissão diz que Ele não permanece fechado no templo, mas sai ao nosso encontro. Jesus caminha pelas ruas, atravessa as praças, visita os nossos bairros, habita os lugares da nossa vida quotidiana. Ele é o Deus próximo que caminha com o seu povo, o Senhor da história, consolo dos fracos, luz para as famílias, esperança para os doentes, paz para quem sofre. O Cristo que passa pelas ruas na custódia é o mesmo que se identifica com os pobres, os abatidos, os que estão sozinhos e desamparados”.

Aqueles silêncios criaram espaço para cada um se encontrar com Jesus Cristo vivo. Ele permanece por perto! Só precisamos de O reconhecer e de O deixar entrar na nossa vida.


Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 96/29, n.º 4854, de 10 de junho de 2026

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